NOTA DO AUTOR: A postagem a seguir foi elaborada, em conjunto com o Diretor Criativo do Caféina Colorida, Miguel Pedrosa, pelo estudante de Comunicação Organizacional da UnB, Lucas Miranda (@_lucas_mm).
Entusiastas da carreira de Conan, e após refletirem sobre sua trajetória e ascensão no mundo pop, Pedrosa e Miranda escreveram, em parceria, sobre o artista.
O artifício das redes sociais, quando utilizado de forma estratégica, pode transformar uma carreira de sucessos moderados em um fenômeno de visibilidade — tanto que muitas equipes de divulgação de produtos da cultura pop, como filmes e músicas, apostam em uma presença digital constante, com conteúdos quase diários, para “vender” seus artistas. Entre os nomes que conquistaram ainda mais popularidade graças a plataformas como o famigerado TikTok está o cantor pop Conan Gray. Embora muitas vezes associado à amizade com a estrela Olivia Rodrigo, sua carreira antecede o estouro dessas redes. Com o timing certo, Conan transformou sua trajetória indie-pop em sucesso absoluto, tornando-se o queridinho “das garotas e dos gays”.
Nascido em 5 de dezembro de 1998, em Lemon Grove, Califórnia, e criado no Texas, Conan é um exemplo contemporâneo de como a internet molda novos artistas. Começou postando vídeos no YouTube ainda adolescente, alternando covers intimistas, vlogs sobre sua rotina e reflexões sobre identidade, solidão e amadurecimento. Filho de mãe japonesa e pai irlandês, passou a infância se mudando de cidade em cidade após o divórcio dos pais. Essa instabilidade, somada ao isolamento e à introspecção, marca profundamente suas composições, que frequentemente abordam amor não correspondido, saudade, insegurança e o desejo de pertencimento.

Com o lançamento do EP Sunset Season (2018), Conan consolidou sua voz no pop alternativo. Músicas como Crush Culture e Generation Why oferecem um olhar crítico — ainda que doce — sobre os rituais juvenis modernos, questionando convenções sociais e romances idealizados..
Seu primeiro álbum de estúdio, Kid Krow (2020), levou-o a um novo patamar de visibilidade. O disco estreou no Top 5 da Billboard 200, impulsionado por hits como Maniac, The Story e, principalmente, Heather — uma balada agridoce que capturou o sentimento de inadequação diante do amor não correspondido, tornando-se viral. Na canção, Conan flerta com vivências LGBT+ ao expressar o desejo de ocupar o lugar da garota amada pelo crush, recebendo toda a sua atenção- e também seu suéter. No videoclipe, o artista experimenta peças de vestuário femininas, como joias e saia, enquanto canta sobre querer ser a “Heather” e obter o mesmo amor e validação que ela.
Em seu segundo álbum, Superache (2022), Conan aprofunda ainda mais sua identidade sonora e lírica, abordando trauma emocional, ausência parental e a complexidade das relações afetivas na juventude. Faixas como Memories, Yours e Family Line revelam amadurecimento artístico: a dor já não é apenas cantada, mas examinada e ressignificada. Musicalmente, ele se ancora em baladas pop melancólicas, com influências que vão de Lorde a Taylor Swift — ambas, inclusive, inspirações declaradas do artista.
Seu terceiro projeto, Found Heaven (2024), mesclou sintetizadores cintilantes e looks glamourosos para criar batidas dançantes com letras igualmente tristes. Inspirado em David Bowie e em sonoridades oitentistas, o álbum não alcançou grande retorno comercial, mas abriu espaço para que Conan abraçasse com mais liberdade seu lado queer e se expressasse de forma mais autêntica.
Até o início da divulgação de seu novo álbum, Wishbone — previsto para lançamento nesta semana —, Conan nunca havia se declarado explicitamente LGBTQIA+. Nos dois singles já revelados, This Song e Vodka Cranberry, ele rompe simbolicamente as “portas do armário” ao protagonizar, com o ator Corey Fogelmanis, videoclipes que contam histórias de amor interligadas, retratando diferentes fases de um relacionamento. A estética permanece envolta em uma atmosfera nebulosa e sonhadora.
Embora o gesto não tenha sido exatamente surpreendente para aqueles que acompanha, o beijo entre os dois gerou repercussão e foi amplamente celebrado pelos fãs. O fato de Conan — conhecido por sua timidez — sentir-se confortável para protagonizar essa cena representa um passo importante em sua carreira, sinalizando que o artista já não teme o julgamento externo.
Sua expressão de gênero, suas letras e sua estética sempre dialogaram com o universo queer. Conan pertence a uma geração que rejeita rótulos e transforma a fluidez em força criativa. Sua imagem mescla elementos andróginos, roupas autênticas e extravagantes, maquiagem suave e gestos delicados, ressignificando a masculinidade de forma contemporânea e poderosa. Longe de adotar a postura performática de muitos ídolos pop, ele aposta desde o início em um carisma vulnerável e em autenticidade emocional.
A relação com seus fãs é marcada por profunda identificação. Sua base — majoritariamente formada por adolescentes e jovens adultos — o enxerga como um confidente emocional. Diferente de outras celebridades distantes, Conan se apresenta como alguém próximo e humano. Em tempos de hiperexposição digital, sua sinceridade atua como antídoto à performance incessante da perfeição. Ele traduz a solidão crônica e a busca por conexões reais que marcam uma juventude hiperconectada.
Culturalmente, Conan Gray representa um momento do pop global menos voltado ao espetáculo e mais à intimidade. Sua presença nas playlists e nos palcos vem acompanhada de uma estética visual que mistura o espírito do Tumblr, fotografia analógica, cores suaves e cenários minimalistas — criando um universo que dialoga com quem cresceu entre blogs confessionais e vídeos emotivos no TikTok. Ele não apenas canta: constrói atmosferas. Sua música é o equivalente sonoro a olhar pela janela em um dia nublado, sentindo falta de algo que talvez nunca tenha existido.
Enquanto muitos artistas perseguem o mainstream com refrões explosivos e batidas agressivas, Conan segue na contramão: aposta na delicadeza. E é justamente essa delicadeza que o torna tão necessário. Em um mundo cada vez mais ruidoso, sua voz suave, melódica e carregada de emoção se destaca. Conan Gray é, portanto, mais do que um cantor pop: é o espelho emocional de uma geração que sente demais — e só encontra alívio quando alguém como ele transforma tudo isso em canção.

