Entre o sucesso de “Obsessão” e “The Backrooms”, novos nomes como Curry Barker e Kane Parsons ganharam destaque no gênero do terror em 2026, demonstrando não apenas o crescimento da categoria, mas também sua vitalidade criativa. De forma mais discreta, embora não menos aclamada, surge Leviticus, filme de estreia do diretor australiano Adrian Chiarella. Protagonizado por Joe Bird e Stacy Clausen, o longa aborda questões importantes para a comunidade queer por meio do terror, equilibrando ambos os elementos com eficiência e se consolidando como um dos títulos mais marcantes do ano.

No interior do estado de Vitória, na Austrália, Naim vive com sua mãe, Arlene, que, assim como o restante da comunidade local, é profundamente religiosa. Embora deteste o lugar onde mora, o jovem encontra algum conforto em seu romance secreto com Ryan, um garoto da região. Após um episódio motivado pelo ciúme, os dois são submetidos a um ritual semelhante a uma terapia de conversão, cujo objetivo é expulsar sua homossexualidade. No entanto, o resultado é muito mais aterrador: ambos passam a ser perseguidos por uma entidade capaz de assumir a aparência da pessoa que mais desejam — um ao outro.

Baseado nas memórias da juventude de Chiarella e em seu desejo de fundir o trauma queer ao terror sobrenatural, Leviticus impressiona pela maneira como homenageia clássicos do gênero, como “Corrente do Mal”, “A Hora do Pesadelo” e “A Coisa“, ao mesmo tempo em que constrói uma narrativa profundamente enraizada em experiências reais. Sua principal mensagem — a de não temer sentimentos considerados “não convencionais” — pode parecer evidente, mas nem por isso perde sua força. O uso moderado de jump scares contribui para transformar a obra em um thriller psicológico, trazendo à tona um tema raramente explorado em produções queer: a desconfiança. Não saber em quem confiar ou para quem se abrir torna-se uma das tensões centrais da narrativa.

Há, de fato, cenas grotescas e momentos de grande tensão, mas eles nunca são utilizados em excesso. Sua execução revela uma vulnerabilidade que aproxima a obra do público. Arranhões demoníacos, deformações físicas e extensões corporais estão presentes, mas muitos dos ferimentos podem ser interpretados como metáforas mais sutis. Em sua aparente simplicidade técnica, o que realmente brilha é o roteiro escrito por Chiarella. Muito do que move os personagens permanece não dito, escondido nas entrelinhas das relações entre os protagonistas e até mesmo entre alguns personagens secundários. O filme dialoga diretamente com o público queer, mas suas mensagens alcançam temas universais: desejo, amor, desilusão, confiança e medo. A ideia de uma criatura que assume a forma da pessoa mais desejada é uma das grandes sacadas do longa, pois nunca sabemos ao certo quando Naim ou Ryan estão interagindo com seus verdadeiros pares. Como resultado, cada encontro carrega uma tensão constante, mantendo o espectador na ponta da cadeira.

Joe Bird e Stacy Clausen conduzem o filme com delicadeza e vulnerabilidade, transmitindo com autenticidade a experiência de dois jovens que estão lidando pela primeira vez com sentimentos considerados proibidos. As cenas compartilhadas pelos atores formam um mosaico de emoções, no qual momentos íntimos transbordam sensualidade, sem recorrer à sexualidade explícita. Já Mia Wasikowska interpreta Arlene, a mãe devota de Naim, com uma sutileza admirável, tratando a personagem como uma incógnita nos momentos mais importantes da trama. Essa ambiguidade reforça o clima de insegurança e suspeita que permeia toda a narrativa, contribuindo para que Leviticus permaneça inquietante mesmo quando seus monstros não estão em cena.

Ao combinar horror sobrenatural, drama psicológico e uma reflexão sensível sobre identidade e aceitação, Leviticus se destaca como uma das estreias mais interessantes do terror contemporâneo. Adrian Chiarella transforma experiências pessoais em uma narrativa universal, utilizando o gênero não apenas para provocar medo, mas também para explorar as inseguranças, os desejos e os conflitos que acompanham o amadurecimento. Com atuações convincentes, uma premissa original e uma abordagem cuidadosa de temas queer, o filme prova que o terror continua sendo uma das ferramentas mais eficazes para discutir questões humanas profundas.