Nota do Autor: Assistido na: 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

 

Depois da surpreendente recepção positiva do filme ‘O Beijo da Mulher-Aranha’, de Hector Babenco, uma das duplas mais ousadas da Broadway, John Kander e Fred Ebb, adaptou a história de Manuel Puig para os palcos. A montagem, estrelada por Chita Rivera no papel titular, tornou-se um fenômeno e conquistou sete prêmios Tony. Trinta anos após encantar os teatros e quarenta anos depois de sua adaptação cinematográfica, retornamos a essa história sobre liberdade, amor e escapismo pelas lentes de Bill Condon — o mesmo responsável por ‘Dreamgirls‘, filme que rendeu o Oscar a Jennifer Hudson. Depois de uma temporada de premiações marcada por ‘Emilia Perez‘, obra em que o latino e o queer foram representados de forma controversa, este novo “Beijo da Mulher-Aranha’ surge como seu completo oposto.

Preso por “indecência” durante os anos finais da Guerra Suja que assolou a Argentina na década de 1980, Luis Molina divide cela com Valentín Arregui, um preso político e guerrilheiro. Tentando escapar da realidade brutal que o cerca, Molina revive seu filme favorito — ‘O Beijo da Mulher-Aranha’, estrelado por Ingrid Luna — narrando cada detalhe com devoção. Através dessas lembranças, ele e Valentín constroem uma improvável conexão no ambiente mais inóspito possível.

Kander e Ebb, criadores de musicais icônicos como ‘Cabaret‘ e ‘Chicago‘, mantêm aqui sua assinatura inconfundível: canções vibrantes e cativantes, como a elétrica “Where You Are” e a faixa-título. Os números musicais, coloridos em homenagem ao glorioso Technicolor e cheios de energia, evocam o dinamismo de “Chicago” e “All That Jazz”. As coreografias exuberantes, acompanhadas pelos luxuosos figurinos de Colleen Atwood, irradiam alegria para os fãs de musicais. Nem todos os números funcionam igualmente — alguns sofrem com enquadramentos fechados e pouca movimentação —, mas os que se destacam têm potencial para se tornarem favoritos do público. Ainda assim, o verdadeiro coração do filme não está nas canções, e sim no vínculo humano que as sustenta.

O roteiro, assinado por Condon, reorganiza passagens do musical de palco para conferir maior linearidade e clareza narrativa. As várias histórias contadas por Molina são condensadas em um único longa, que empresta elementos da célebre adaptação de ‘Chicago’ ao eliminar números musicais que extrapolariam o campo da fantasia. Isso abre espaço para atuações mais intensas e intimistas, com Jennifer Lopez incorporando o brilho e o glamour da ficção, e Luna e Tonatiuh explorando seus talentos . Condon não teme dialogar com o filme de Babenco — pelo contrário, atualiza-o com um olhar contemporâneo. A prisão pode não parecer tão opressora ou claustrofóbica quanto na obra original, mas os métodos de tortura e o peso psicológico reforçam o horror do regime, tornando o desejo de fuga de Molina ainda mais palpável.

Como carta de amor às comunidades latina e queer (como uma releitura se aventurando pela trajetória Trans), o filme denuncia a ditadura argentina de forma semelhante à crítica feita por Babenco ao regime militar brasileiro, reafirmando a importância do poder popular e da resistência como motores de transformação. A narrativa mostra que os rótulos se dissolvem quando o amor e a empatia florescem, e que o desejo de ser outro — de transcender a própria realidade — é tão legítimo quanto o desejo de sobreviver. O poder da fantasia, portanto, se revela como refúgio e como forma de resistência diante da opressão e da desilusão, mas ao mesmo tempo avisa: tudo é política e as vezes é necessario revolucionar para ser quem se é de verdade.

O Valentín Arregui de Diego Luna quebra paradigmas: o guerrilheiro cético e endurecido se permite sonhar, fantasiar e se abrir emocionalmente, mesmo que isso demoreq acontecer. Sua relação com Molina cresce de maneira orgânica e comovente. Já Tonatiuh, no papel de Molina, entrega uma performance vulnerável e digna de prêmios — um protagonista errante que comunica mil sentimentos em um único olhar ou em um gesto contido. O musical de Bill Condon promete garantir ao ator o merecido reconhecimento entre grandes nomes da temporada.

O fator estelar, contudo, está em Jennifer Lopez. A artista incorpora ecos de Chita Rivera e Sônia Braga, mas cria uma interpretação própria. Mesmo quando sua performance parece clichê ou artificial (intencionalmente Camp, em alguns pontos), Lopez usa esses aspectos a seu favor, revelando as múltiplas facetas de suas personagens. Seu canto e sua dança evocam divas latinas como Rita Hayworth e Rita Moreno, consolidando sua versatilidade em três personas distintas: Ingrid Luna, a atriz; Aurora, a estrela vibrante; e a enigmática Mulher-Aranha. J-lo não precisa espernear ou gritar, mas ser deslumbrante, cantar e dançar… O que ela facilmente faz

Com ‘O Beijo da Mulher-Aranha’, Bill Condon entrega um musical ambicioso que combina espetáculo visual e profundidade emocional, que muitos talvez interpretem como projeto do Hubris de Jennifer Lopez. Entre cores, canções e símbolos, a obra revisita o legado de Manuel Puig com uma sensibilidade renovada, celebrando o poder transformador da arte, da imaginação e do afeto. É um filme sobre ver beleza no cárcere, encontrar humanidade no improvável e reconhecer que a verdadeira liberdade, por vezes, só existe dentro dos sonhos.

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