Em 1998, Practical Magic apresentou as irmãs Owens, uma dupla de bruxas descendentes de uma linhagem secular e poderosa, em um filme cult protagonizado por Sandra Bullock e Nicole Kidman. Desde seu lançamento, muita coisa mudou nas carreiras das duas atrizes e na própria forma como a cultura pop representa a magia e as bruxas. Agora, como tantas outras franquias carregadas de nostalgia que retornam décadas depois, somos novamente conduzidos a Massachusetts para acompanhar uma nova geração da família Owens e uma antiga maldição que continua determinando o destino amoroso de suas mulheres em ‘ Practical Magic 2’.
Anos depois de tentar afastar as filhas, Kylie e Antonia, da magia e da maldição que assombra sua família, Sally e Gillian Owens se veem novamente envolvidas com o sobrenatural quando uma tragédia ameaça a nova geração. Ao descobrir que o amor de sua vida pode estar ligado à maldição dos Owens, Kylie parte em busca de respostas e acaba chegando à Inglaterra, terra de origem de sua ancestral Maria Owens. Enquanto Sally, Gillian e as tias tentam compreender os segredos deixados no misterioso Livro do Corvo, a família precisa confrontar o passado e descobrir a verdadeira origem da maldição antes que ela faça uma nova vítima.
Como acontece com muitas continuações produzidas décadas depois de seus antecessores, o filme revisita acontecimentos e conceitos do original, reorganizando-os sob uma perspectiva mais contemporânea. Essa escolha permite que determinados elementos sejam trabalhados novamente, embora também faça com que a narrativa recorra a algumas resoluções relativamente convenientes e familiares ao gênero. Ainda assim, a relação entre as irmãs Owens preserva parte da acidez e da cumplicidade presentes no primeiro filme. O tempo, naturalmente, provocou mudanças em suas personalidades, e essa maturidade — ou a dificuldade em lidar com ela — cria novas possibilidades para Bullock e Kidman revisitarem suas personagens.
Enquanto o primeiro Da Magia à Sedução possuía uma identidade visual marcadamente atemporal, com sua fotografia outonal e atmosfera aconchegante, a sequência demonstra dificuldade em estabelecer um estilo próprio. Em determinados momentos, sua estética se aproxima daquela de uma produção concebida diretamente para o streaming, sem a mesma personalidade visual do longa original. Apesar disso, o filme amplia consideravelmente o universo da família Owens para além de Massachusetts e mantém como um de seus principais temas a maneira como o luto pode afetar a racionalidade, as escolhas e a própria percepção de uma pessoa sobre a vida.
A magia também é atualizada para o século XXI. A tecnologia passa a fazer parte da relação das personagens com o sobrenatural, sugerindo que a magia não precisa necessariamente permanecer presa às tradições do passado. Essa combinação entre o antigo e o contemporâneo contribui para tornar a mitologia mais flexível e, de certa maneira, reforça justamente sua natureza imaterial. O problema é que essas ideias interessantes nem sempre recebem o desenvolvimento necessário. Visualmente pouco inspirado e narrativamente previsível em diversos momentos, o filme ainda apresenta uma mitologia suficientemente curiosa para sustentar novas histórias. Considerando o potencial comercial de uma propriedade como essa, especialmente nas mãos de um grande estúdio, é fácil imaginar que o universo dos Owens possa ser explorado muito além das telas.
E o que dizer de Nicole Kidman e Sandra Bullock como Sally e Gillian Owens? Os principais traços das personagens permanecem reconhecíveis, mas existe uma mudança importante na maneira como elas lidam com suas responsabilidades e com as consequências de suas escolhas. A maturidade — ou, em alguns momentos, a ausência dela — é colocada à prova diante das adversidades. Bullock e Kidman demonstram que ainda existe uma química natural entre as duas, e a dinâmica das irmãs continua sendo um dos pontos mais interessantes da produção. Stockard Channing e Dianne Wiest também retornam como as excêntricas tias Frances e Jet, funcionando novamente como um contraponto emocional às irmãs Owens. Mesmo com menos espaço, as duas preservam a dignidade, o humor e o charme que fizeram das personagens algumas das figuras mais memoráveis do primeiro filme. Joey King, Maisie Williams, Lee Pace e Xolo Maridueña completam o elenco e ajudam a estabelecer a conexão entre as diferentes gerações da família.
No fim, Practical Magic 2 encontra seu maior mérito justamente naquilo que também representa sua principal fragilidade: a nostalgia. O filme entende o carinho que o público possui pelo original, recupera personagens, conceitos e relações familiares importantes e tenta atualizá-los para um novo momento. Entretanto, essa reverência acaba impedindo que a sequência desenvolva plenamente uma identidade própria. Há boas ideias, uma mitologia que ainda desperta curiosidade e um elenco capaz de sustentar momentos interessantes, mas falta ao conjunto a personalidade que transformou o primeiro filme em um clássico cult. Ainda assim, existe algo genuinamente agradável em retornar à casa dos Owens.
A magia continua funcionando como metáfora para família, amor, perda e amadurecimento, e a ideia de que determinadas heranças não podem simplesmente ser abandonadas permanece atual. Talvez o maior potencial dessa nova história esteja justamente em compreender que a maldição dos Owens não precisa ser apenas uma repetição do passado. Se houver espaço para novas histórias, o universo criado por Da Magia à Sedução pode finalmente descobrir como transformar sua nostalgia em algo novo — e não apenas em uma lembrança reencantada de um clássico dos anos 1990.

