‘Supergirl’ chega aos cinemas carregando uma responsabilidade enorme: apresentar oficialmente Kara Zor-El dentro da nova fase do universo da DC e fazê-la sair da sombra de seu primo mais famoso. Sob a direção de Craig Gillespie, o longa adapta uma das HQs mais elogiadas da personagem, mas opta por uma abordagem que mistura aventura espacial, drama e amadurecimento.
A história acompanha Kara às vésperas de completar 23 anos. Após passar bom tempo viajando por sistemas sem um sol amarelo — onde seus poderes permanecem praticamente inativos —, ela cruza o caminho da jovem Ruthye, que busca vingança pela morte de sua família. Quando Krypto, o Supercão, acaba sendo envenenado, Kara decide embarcar nessa jornada intergaláctica, assumindo aos poucos o papel heroico que tenta evitar desde a destruição de Krypton.
O maior acerto do filme é, sem dúvida, Milly Alcock. A atriz entrega uma interpretação extremamente convincente, construindo uma Supergirl muito diferente da imagem tradicionalmente associada à personagem. Sua Kara é impulsiva, amarga e emocionalmente marcada pelos traumas de Krypton, mas também demonstra vulnerabilidade e compaixão suficientes para tornar sua evolução natural ao longo da narrativa. Alcock transita com facilidade entre momentos de humor, melancolia e imponência, sustentando praticamente todo o longa com seu carisma. Sua relação com David Corensweet remarca a dinâmica dos personagens e cimenta o ator como o novo homem de aço
Outro ponto positivo está na maneira como o filme retrata Krypton. Em vez de um mundo quase mitológico, a direção o reconstrói como uma espécie de metrópole futurista, próxima de uma “Nova York alienígena”. Essa escolha fortalece a diferença entre Kara e Kal-El: enquanto Superman conhece Krypton apenas como uma memória distante, Kara viveu sua infância naquele planeta e carrega cicatrizes profundas de sua destruição. Essa dualidade dá uma camada dramática interessante à personagem e ajuda a justificar sua postura mais cínica e relutante.
Também merece destaque a estreia de Jason Momoa como Lobo. O ator abandona definitivamente Aquaman para incorporar o mercenário espacial com bastante personalidade. Sua participação é divertida, explosiva e deixa evidente que a DC pretende utilizá-lo com mais frequência nas próximas produções. Embora sua presença seja relativamente breve, ela funciona como um dos momentos mais carismáticos do filme.
Infelizmente, nem tudo funciona tão bem quanto deveria. Craig Gillespie demonstra competência na condução das cenas de ação e dos momentos mais intimistas, mas nunca parece explorar todo o potencial da obra que adapta. Em diversos momentos, o longa tenta reproduzir o humor irreverente, o ritmo acelerado e a estética colorida popularizados por James Gunn, porém sem alcançar a mesma identidade ou criatividade.
O resultado é um blockbuster competente, porém excessivamente familiar. A narrativa segue uma estrutura bastante previsível e evita correr riscos maiores, deixando a sensação de que a produção poderia ter aprofundado ainda mais seus temas centrais sobre trauma, identidade e legado. Embora existam momentos emocionalmente fortes, o filme raramente surpreende ou apresenta algo realmente novo dentro do gênero.
No fim, ‘Supergirl’ cumpre sua principal missão: apresentar uma excelente versão de Kara Zor-El e consolidar Milly Alcock como uma das grandes apostas da nova DC. Entretanto, a direção excessivamente segura impede que o longa alcance o mesmo impacto e o frescor vistos em Superman. É uma boa aventura espacial, com ótimos personagens e interpretações marcantes, mas que permanece presa às convenções dos grandes blockbusters contemporâneos quando tinha potencial para se tornar algo muito mais memorável.

