Yorgos Lanthimos, com sua direção singular e provocativa, é a mente por trás de dois dos filmes mais celebrados pela Academia nos últimos anos: ‘A Favorita’, uma comédia sombria sobre a disputa pela atenção de uma rainha insana e trágica, e ‘Pobres Criaturas’, uma fábula surrealista sobre a redescoberta feminina em uma era vitoriana distorcida. Ambas as obras foram amplamente aclamadas pela crítica e pelo público, além de renderem a suas protagonistas — Olivia Colman e Emma Stone — o Oscar de Melhor Atriz em seus respectivos anos. Em 2025, Lanthimos retorna em mais uma parceria com Stone, agora em ‘Bugonia’.
Teddy e seu primo Don são dois conspiradores excêntricos que, quando não estão cuidando de abelhas, acreditam que a Terra está sob constante ameaça de invasores da galáxia de Andrômeda. Seus delírios ganham contornos perigosos quando passam a crer que Michelle Fuller, CEO de uma megacorporação farmacêutica, é uma dessas alienígenas — e decidem sequestrá-la. Mantida em cativeiro, com a cabeça raspada e diante de dois homens mergulhados em suas próprias convicções paranoicas, Michelle precisa encontrar uma forma de escapar ou ceder à loucura deles, interpretando o papel que Teddy quer ouvir: o de uma extraterrestre infiltrada.
Comparado ao excelente Pobres Criaturas, Bugonia abraça o absurdo com prazer. Suas performances exageradas e o roteiro afiado — inspirado no filme sul-coreano ‘Save the Green Planet!’, da qual serve oficialmente como um remake— fazem da obra uma sátira delirante sobre crença, paranoia e humanidade. O que lhe falta em grandiosidade visual, sobra em complexidade emocional: o mundo de Teddy e Don é claustrofóbico, mas carregado de simbolismo. A relação entre eles, a presença ausente da mãe e o desequilíbrio mental que permeia cada diálogo tornam o confinamento ainda mais inquietante.
O tema central do filme é a alienação — o afastamento da realidade e a perda de discernimento entre o que é verdade e o que é invenção. Em uma brilhante piada visual, a Terra vai, aos poucos, tornando-se literalmente plana, em alusão direta às conspirações modernas e à cegueira de quem acredita nelas com fervor religioso. Com momentos de cinismo corrosivo e reviravoltas constantes, Bugonia se assemelha a um episódio distorcido e intensificado de Além da Imaginação.
O elenco é conciso, mas poderoso: Jesse Plemons, Aidan Delbis e Emma Stone dominam a narrativa. Plemons entrega uma atuação arrebatadora, encarnando um homem fragmentado que mistura crenças delirantes a traumas pessoais — um personagem tão humano quanto monstruoso, mais alienígena do que a suposta extraterrestre. Delbis, convidado aos 17 anos, interpreta Don com uma simplicidade comovente: seu olhar perdido e o fascínio pelo espaço o transformam em um símbolo de pureza e ingenuidade trágica. Já Emma Stone, como Michelle, equilibra a frieza corporativa e o desespero de quem tenta manter o controle diante da insanidade. Mesmo amarrada e de cabeça raspada, sua presença emana poder, inteligência e ironia. Definitivamente uma das maiores atrizes dessa geração nos mesmos moldes que Bette Davis.
Com ‘Bugonia’, Yorgos Lanthimos reafirma seu domínio sobre o cinema do desconforto — aquele que ri do absurdo humano enquanto o observa de perto, quase cruelmente. O filme é menos sobre alienígenas e mais sobre o que a própria humanidade se torna quando acredita demais nas suas próprias verdades. Entre abelhas, sequestros e teorias conspiratórias, Lanthimos constrói um espelho distorcido, mas revelador: o verdadeiro monstro, afinal, talvez nunca tenha vindo do espaço.

