A animação ‘Zootopia’ foi um dos maiores sucessos da Disney Animation Studios, conquistando o Oscar de Melhor Animação em 2017. O filme, ambientado em uma megametrópole habitada por mamíferos antropomorfizados, apresenta alegorias inteligentes sobre segregação e racismo, transmitindo uma mensagem de união e comunidade. Talvez um dos filmes mais populares da década, Judy Hopps e Nick Wilde retornam agora em mais uma aventura da Casa do Rato.

Celebrando o centenário de Zootopia, a metrópole está em festa. Os amigos — e oficiais da lei — Judy e Nick enfrentam dificuldades em sua parceria e precisam solucionar um mistério de décadas envolvendo a família fundadora da cidade, os Lynxey. O que não esperavam era ter de confrontar uma serpente, algo que não é visto por lá há décadas. Ao explorar as diferentes regiões de Zootopia, Judy Hopps e Nick Wilde precisam encarar a própria história da cidade e os desafios de sua própria relação.

Após três projetos que ficaram aquém do padrão de excelência ao qual o estúdio nos acostumou, ‘Zootopia 2’ retorna à fórmula com uma comédia policial repleta de mistério, perseguições e muita química entre seus protagonistas. Aqueles que se divertiram — e refletiram — com o primeiro longa podem ficar tranquilos: o novo filme, dirigido por Jared Bush, não apenas alcança o mesmo patamar de sucesso como, em alguns momentos, o supera, oferecendo um longa-metragem divertido e sem medo de arriscar.

Judy Hopps e Nick Wilde retornam em uma história que permite que ambos brilhem igualmente, evidenciando suas vulnerabilidades e forças. Imperfeitos, os dois crescem e mudam ao longo da missão, que busca aprimorar sua parceria — e talvez responder à pergunta que muitos fãs se fazem: será que a Disney Animation cederá às pressões e transformará os dois em um casal? Personagens antigos e novos complementam a narrativa, mostrando diferentes lados de Zootopia e como a aventura do primeiro filme alterou a visão dos protagonistas. Contudo, eles não recebem tanto destaque, que fica reservado ao comentário social e ao mistério envolvendo os répteis. A grande preocupação do filme também parece ser a construção de mundo, tornando a metrópole mais palpável e traçando paralelos verossímeis, além de preparar terreno para possíveis futuras instâncias da franquia ao apresentar novas ambientações da cidade.

‘Zootopia’ abordou a alegoria racial entre predadores e presas de maneira inteligente, construindo uma narrativa marcada pela lógica do “nós contra eles”. Já ‘Zootopia 2 amplia o conflito para questões de expansão territorial, gentrificação e discursos anti-minorias, colocando os répteis — não apenas serpentes, frequentemente demonizadas na mídia — no lugar do grupo oprimido. Se Bellwether, a vilã do primeiro filme, representa políticos que exploram o medo em seus discursos, os Lynxey ( um trio com ares inspirados na série Sucession) simbolizam a elite corrupta, eternamente no topo e capaz de se apropriar do que é original em um estalar de dedos — ainda sim, no departamento antagônico o longa repete alguns erros pontuais do vencedor do Oscar.

A animação nunca esteve melhor: os animais estão mais expressivos, explorando plenamente o potencial da linguagem animada; as cores vibrantes valorizam os designs; e as texturas dos ambientes equilibram o real e o caricato. A presença de mamíferos marinhos e répteis, especialmente Gary, introduz maior elasticidade e dinamismo visual em um personagem sem membros tradicionais para se expressar. A escala também é incorporada com naturalidade à trama: das girafas aos ratos, a diferença de tamanho nos ambientes é bem-vinda e reforça a consistência desse universo. Shakira retorna como Gazelle, a popstar mais amada da cidade, protagonizando cenas visualmente chamativas e divertidas e apresentando um novo single que, ainda que não supere “Try Everything”, cumpre seu papel — tanto dentro quanto fora do filme.

‘Zootopia 2’ demonstra que a franquia ainda tem fôlego para explorar novas camadas sociais e expandir o universo que conquistou o público em 2016. Ao trazer para o centro da narrativa grupos historicamente marginalizados, a animação reafirma o papel do cinema como espaço de reflexão ao mesmo tempo em que mantém sua essência de entretenimento leve e acessível. Judy e Nick permanecem como o coração emocional da história, mas agora inseridos em um cenário mais complexo, que exige maturidade de suas ações e questiona os limites do progresso social. Em um equilíbrio raro entre espetáculo visual e crítica sutil, o filme prova que a Disney Animation, quando investe em narrativas que dialogam com a realidade, continua capaz de entregar não apenas sucessos comerciais, mas obras que permanecem no imaginário do público.