Muito antes de fazer história com a vitória de ‘Ainda Estou Aqui’, Walter Salles não era alheio à cerimônia do Oscar. O cineasta — hoje um dos mais renomados do mundo — já havia representado o Brasil ao lado de Fernanda Montenegro durante a campanha de premiações da ‘Central do Brasil’. O filme de 1998 foi indicado a duas categorias no Oscar de 1999, mas acabou derrotado pela forte campanha em torno de Gwyneth Paltrow e pelo apelo emocional de Roberto Benigni. Ainda assim, Central do Brasil tornou-se um dos filmes nacionais mais emblemáticos e, quase trinta anos após seu lançamento, permanece vivo no imaginário cultural brasileiro.

A narrativa acompanha Dora, uma professora aposentada que ganha a vida escrevendo cartas para analfabetos na Estação Central do Brasil. Certo dia, uma de suas clientes morre atropelada, deixando para trás o filho, Josué. A contragosto, Dora leva o menino para o apartamento que divide com a amiga Irene. Josué, que nunca conheceu o pai, insiste para que Dora o leve até ele — um pedido que, após alguma resistência, a professora aceita. Juntos, eles partem pelo Nordeste brasileiro, iniciando uma jornada que transforma profundamente ambos.

O filme de Salles constrói paralelos sensíveis e inteligentes: o mundo gigantesco que envolve a estação e as cidades por onde Dora e Josué passam contrasta com os espaços fechados, sempre apertados e quase claustrofóbicos. A violência policial que permeia a estação confronta o avanço do progresso e o fluxo humano crescente, revelando tensões sociais que persistem independentemente da paisagem.

A estética do filme reforça esse percurso emocional. As cores quentes dominam a fotografia — afinal, estamos no sertão — e nenhum ambiente é limpo ou polido. As texturas expressam desde o início o desgaste físico e emocional dos personagens. O longa também abraça com naturalidade as manifestações culturais do Nordeste, enriquecendo sua ambientação. A trilha sonora, delicada e precisa, intensifica a carga afetiva da história.

 

A atuação de Fernanda Montenegro sustenta o filme com maestria. Sua Dora, estoica e endurecida pela vida, aos poucos recupera um lado mais sensível. Para quem está acostumado a ver a atriz em papéis formais e imponentes, suas inflexões irônicas e explosões cômicas são um deleite — mas é no drama que Montenegro realmente brilha, com cenas que derretem a rigidez da personagem e comovem profundamente o público. Vinícius de Oliveira, como Josué, contracena com autenticidade: seus olhos suplicantes por afeto, o sorriso contagiante e a química natural com Montenegro fazem dele o coração emocional do filme. Marília Pêra, Otto Bastos, Otávio Augusto e Matheus Nachtergaele completam o elenco com solidez.

‘Central do Brasil’ tornou-se um dos maiores destaques da temporada de premiações de 1999, vencendo o Globo de Ouro e o BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro. A indicação de Fernanda Montenegro ao Oscar de Melhor Atriz marcou um momento histórico: ela foi a primeira brasileira — e a primeira latina — nomeada nessa categoria. Embora não tenha levado a estatueta, sua presença ali consolidou o prestígio do cinema nacional no cenário internacional.O filme também levou Walter Salles a carreira internacional

Mais do que um marco cinematográfico, Central do Brasil permanece como uma obra profundamente humana, que transcende fronteiras e gerações. Seu impacto cultural, estético e emocional ecoa até hoje, reafirmando a força do cinema brasileiro e a importância de contar histórias que revelam, com sensibilidade, às desigualdades, os afetos e a esperança que moldam o país. É um filme que não apenas marcou sua época, mas continua a inspirar artistas, cineastas e espectadores ao redor do mundo.

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