Baseado no musical da Broadway criado por Jerry Herman, que, por sua vez, adaptava a peça The Matchmaker, de Thornton Wilder, Hello, Dolly!, lançado em 1969, é um filme extravagante, teatral, excessivo e profundamente apaixonado pela ideia do espetáculo. Dirigido por Gene Kelly e estrelado por Barbra Streisand, o longa transformou-se em um símbolo de uma era que chegava ao fim. Seu fracasso de bilheteria é frequentemente apontado como um dos responsáveis pela “morte” dos supermusicais hollywoodianos, funcionando como o último grande suspiro dos musicais clássicos antes de a Nova Hollywood — mais cínica, urbana e realista — dominar as telas nos anos seguintes.

Na Nova York da virada do século XX, Dolly Levi é uma viúva exuberante, persuasiva e dona de múltiplos talentos, conhecida principalmente por seu trabalho como casamenteira. Sua nova missão é encontrar uma esposa para Horace Vandergelder, um comerciante rabugento e conservador da cidade de Yonkers. Entretanto, o verdadeiro plano de Dolly é casar-se ela mesma com o ricaço. Para alcançar esse objetivo, ela articula uma série de encontros, desencontros, confusões e viagens envolvendo os funcionários de Horace e uma jovem chapeleira, transformando as ruas de Nova York em um palco vibrante de dança, romance e elegância.

Tudo em Hello, Dolly! parece grandioso demais: os cenários, as coreografias, os figurinos, os movimentos de câmera e as multidões dançando sincronizadamente pelas ruas. A produção custou uma fortuna para os padrões da época e acabou se tornando um símbolo da decadência financeira dos grandes musicais hollywoodianos. Muitos críticos apontaram justamente esse gigantismo como um defeito, argumentando que o filme sacrificava a intimidade emocional em favor do espetáculo visual. Revê-lo hoje, porém, é perceber que esse excesso constitui exatamente sua identidade. O filme não deseja soar realista; deseja reproduzir no cinema o espetáculo que imortalizou Carol Channing nos palcos — e que, posteriormente, também seria marcado pela presença avassaladora de Barbra Streisand.

A direção de Gene Kelly demonstra um amor absoluto pela linguagem do musical clássico. Mesmo sem protagonizar números de dança como fazia em sua juventude, Kelly conduz as sequências musicais com energia monumental. Existe um senso contínuo de movimento que transforma cada espaço em palco, seja em um desfile, em uma estação de trem ou em um restaurante sofisticado.

E então existe Barbra Streisand, protagonista de um dos maiores empates em Hollywood. Muito se discutiu, à época do lançamento, sobre sua idade para interpretar Dolly Levi. A personagem havia sido concebida originalmente como uma mulher mais velha, uma viúva madura, característica perfeitamente incorporada por Carol Channing nos palcos da Broadway. Streisand, entretanto, tinha pouco mais de vinte anos durante as filmagens, e parte da crítica considerou sua escalação equivocada. Ainda assim, o filme funciona justamente porque ela transforma Dolly em algo completamente diferente do esperado. Sua presença magnética domina cada cena com uma força quase absurda. Walter Matthau surge como o contraponto perfeito para Streisand. Seu Horace Vandergelder é amargo, rígido e constantemente irritado, quase como se estivesse preso dentro de um filme diferente. Curiosamente, isso beneficia a narrativa. Enquanto Dolly representa movimento, música e exuberância, Horace simboliza ordem, pragmatismo e repressão emocional.

Visualmente, Hello, Dolly! é deslumbrante. A fotografia recria uma Nova York idealizada do século XIX com cores saturadas, figurinos exuberantes e cenários gigantescos que parecem saídos diretamente de um sonho teatral. O trabalho de direção de arte venceu o Oscar, e não é difícil entender o motivo.

Talvez seja justamente isso que torna Hello, Dolly! tão melancólico sob sua superfície alegre. Lançado em 1969, o filme chegou aos cinemas em um momento no qual o público jovem buscava algo completamente diferente. Obras mais cruas, políticas e experimentais começavam a dominar a indústria cinematográfica. Enquanto filmes como Easy Rider e Cabaret apontavam para o futuro do cinema americano, Hello, Dolly! olhava apaixonadamente para trás. Era uma superprodução construída segundo os moldes dos musicais clássicos dos anos 1950, praticamente ignorando as mudanças culturais que aconteciam ao redor. Muitos enxergaram isso como um sinal de obsolescência.

No entanto, o tempo acabou sendo generoso com o filme. O que antes parecia antiquado hoje soa encantadoramente sincero. Existe uma honestidade emocional em sua extravagância que falta a muitas produções contemporâneas excessivamente autoconscientes. Hello, Dolly! não sente vergonha de ser sentimental, romântico ou grandioso. O filme acredita plenamente no poder transformador da música, do amor e do espetáculo — e talvez seja impossível não se deixar contagiar por isso.

No fim, Hello, Dolly! permanece como uma cápsula luxuosa do encerramento de uma era. Talvez não seja o musical mais sofisticado já produzido, nem o mais emocionalmente profundo. Ainda assim, é um dos mais apaixonados pelo próprio ato de entreter. Sua grandiosidade quase operística, sua direção exuberante e, principalmente, o carisma avassalador de Barbra Streisand transformam o filme em algo maior do que sua narrativa simples. É um espetáculo construído para deslumbrar — e, décadas depois, continua conseguindo fazê-lo com impressionante facilidade.

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