Existe um momento em que franquias decaem, e com Invocação do Mal não foi diferente. Na primeira parte desta análise, vimos como James Wan estabeleceu um universo onde o horror era palpável, a tensão era real e os Warrens, apesar de protagonistas, serviam majoritariamente aos casos.

Agora, de uma história de fantasmas para laços de família, vamos (re)visitar essa saga mais uma vez para entender como algo assustador tomou um rumo mais sentimental do que imaginávamos, sob a direção de Michael Chaves.

Quando Wan saiu da cadeira de diretor, algo se quebrou. A magia que ele usava para transformar casos reais, muitas vezes absurdos, em terror puro desapareceu. O que sobrou foi o drama dos Warrens, agora exposto sem o escudo do medo.

The Conjuring: The Devil Made Me Do It (2021)

Vamos ser diretos, o terceiro capítulo, Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio (The Conjuring: The Devil Made Me Do It, 2021), é entediante. O filme abre com o exorcismo de David Glatzel (interpretado por Julian Hilliard), que dá errado de forma espetacular. No caos, o namorado de sua irmã, Arne Johnson (interpretado por Ruairi O’Connor), convida a entidade a possuí-lo para salvar o garoto. Meses depois, Arne, agora possuído, assassina seu senhorio e seu caso se torna o primeiro na história dos EUA a usar “possessão demoníaca” como defesa legal.

É uma premissa fascinante que mistura true crime, drama de tribunal e horror sobrenatural. O que o filme faz com isso? Joga no lixo.

Em vez de explorar a tensão do julgamento ou a ambiguidade do caso, o roteiro inventa uma antagonista, a Ocultista “Isla” (interpretada por Eugenie Bondurant), que, segundo as fontes, é completamente fictícia e não tem relação com o caso Johnson real. O filme troca um drama de tribunal sobrenatural por um plot batido de “bruxa satânica que controla os outros” que já vimos mil vezes, e de formas melhores.

O maior pecado de Michael Chaves aqui é o ritmo. O filme é flat. A tensão dos dois primeiros filmes, construída na espera, no silêncio e no enquadramento de Wan, evapora. Chaves tenta, mas não consegue espremer o máximo da trama, deixando-a arrastada. E a frustração aqui é real, porque eu sou fã ávido de terror. Quando eu vejo um filme, eu quero sentir a tensão, quero o arrepio que A Entidade (2012) me dá até hoje. Se não é pra me assustar, o filme falhou comigo. Esse capítulo não é apenas um filme de terror ruim, é um filme investigativo ruim. Os Warrens deixam de ser investigadores paranormais e viram detetives medíocres correndo atrás de uma vilã genérica. É um tropeço.

The Conjuring: The Devil Made Me Do It (2021)

Depois do desastre do capítulo anterior, as expectativas para o quarto capítulo, Invocação do Mal 4: O Último Ritual (The Conjuring: The Last Rites, 2025), estavam baixas. O filme, felizmente, não é tão entediante. Infelizmente, também não é assustador.

O quarto filme decide adaptar o caso da família Smurl. O plot acompanha Jack e Janet Smurl (interpretados por Elliot Cowan e Rebecca Calder), que se mudam com suas filhas (interpretadas por Beau Gadsdon, Kíla Lord Cassidy, Molly Cartwright e Tilly Walker) e os pais de Jack para uma casa em West Pittston, Pensilvânia. O caso real, que durou de 1974 a 1989, é onde a palavra “baboseira” que usei antes se aplica em dobro. As alegações da família Smurl iam de cheiros e sons inexplicáveis a demônios que supostamente jogavam o cachorro contra a parede, agrediam fisicamente e, crucialmente, agrediam de forma vil os membros da família (o infame succubus e incubus). Os Warrens só foram chamados em 1986.

The Conjuring: The Last Rites (2025)

Era um material pesado, grotesco e genuinamente perturbador. Um James Wan teria mergulhado nisso e criado um pesadelo corporal. Mas o que Michael Chaves faz? Foge disso. E, convenhamos, é uma escolha… peculiar para não dizer outra coisa. O caso Smurl real supostamente tinha demônios, succubus e violência, e o filme decide colocar isso no background para focar no drama familiar ‘soft’? Não acredito que seja uma escolha muito inteligente.

O Último Ritual faz exatamente isso, joga o caso de terror para segundo plano. A investigação dos Smurl serve apenas como cola para a verdadeira trama, o encerramento da jornada pessoal dos Warrens, envolvendo sua filha Judy (agora adulta, interpretada por Mia Tomlinson) e seu futuro marido Tony Spera (interpretado por Ben Hardy). O filme troca o horror explícito pelo sentimental.

The Conjuring: The Last Rites (2025)

É aqui que as coisas mudam. A falta de James Wan é notável na tensão, mas o que ele construiu nos dois primeiros filmes, a química inabalável de Patrick Wilson e Vera Farmiga, permanece intacta. Eles são o coração que ainda pulsa. O quarto capítulo não funciona como terror, mas funciona como conclusão. É uma carta de amor.

E aqui chegamos ao porquê dessa mudança. Invocação do Mal nunca foi realmente sobre os casos. Como o contexto cultural em torno dos Warrens reais (o “charlatanismo”, a “novelização” dos casos para ganho monetário) deixa claro, a franquia é, em sua essência, uma hagiografia. Foi um acordo com Lorraine Warren: ela ajudaria nas pesquisas e permitiria o uso da imagem, desde que visse uma versão do marido que fosse melhor do que o “charlatão” que a mídia pintava, uma versão apaixonada por ela.

James Wan era um mestre em equilibrar os pratos. Como vimos na primeira parte, ele pegava casos controversos (Perron) e os elevava a um terror de alta classe (Enfield), usando sua magia de cinema para transformar a ambiguidade da realidade em tensão pura, enquanto cumpria a promessa de honrar o casal. Michael Chaves, sem a mesma maestria, apenas entrega o sentimental. Esses dois últimos capítulos são a franquia sem seu disfarce de terror. São filmes sobre o romance dos Warrens, onde os fantasmas são coadjuvantes.

The Conjuring: The Last Rites (2025)

O Veredicto de Invocação do Mal

Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio é um grande tropeço na franquia. Refletindo a queda na qualidade, a crítica despencou dos 80% do segundo filme para apenas 56% no Rotten Tomatoes. O público concordou, dando-lhe um CinemaScore “B”, muito abaixo do “A-” dos filmes de Wan. Embora tenha arrecadado $206.4 milhões mundialmente, é um capítulo entediante e completamente esquecível.

Já Invocação do Mal 4: O Último Ritual acaba por ser uma carta de amor aos fãs. A crítica permaneceu morna, empatando com o terceiro em 56% no Rotten Tomatoes, mas o público respondeu de forma diferente. Impulsionado pela nostalgia da despedida, o filme se tornou o maior sucesso de terror do ano, arrecadando mais de $459 milhões, e o público deu uma nota de audiência de 78%. Mesmo sem grande tensão, diverte e deixa um quentinho no coração dos fãs do casal fictício (o real é outra história).

No geral, a franquia vale a pena, mesmo com os tropeços pelo caminho. O capítulo final é um final agridoce. É uma conclusão “flat”, mas necessária, para o romance de Ed e Lorraine. Só não espere levar sustos. Para isso, você terá que (re)visitar os dois primeiros.