A “trilogia do trash”, de John Waters, configura um universo em que o mau gosto deixa de ser um defeito e se transforma em arte, ou melhor, filmes . Composta por Pink Flamingos, Female Trouble e Desperate Living, essa trilogia consolidou o cineasta como uma das vozes mais provocativas do cinema underground americano, desafiando normas sociais, narrativas tradicionais e os próprios limites do que pode ser exibido em tela.
O primeiro filme, Pink Flamingos, é talvez o mais infame — e não sem motivo. A história gira em torno de Babs Johnson (interpretada caoticamente por Divine), que vive em um trailer com sua mãe, viciada em ovos, e seu filho delinquente. Ela detém o título de “A Pessoa Mais Suja do Mundo”. O conflito surge quando o casal Connie e Raymond Marble tenta roubar esse título por meio de atos cada vez mais depravados. Aqui, Waters escandaliza ao mesmo tempo em que constrói uma sátira grotesca da moralidade da época. Ao exagerar o vulgar, ele revela o quão arbitrárias são as convenções de “bom gosto”. O filme tornou-se um marco do cinema de transgressão, especialmente por sua cena final, que permanece como uma das chocantemente repulsivas da história do cinema. No entanto, mais do que provocar choque, Pink Flamingos é um ataque direto à hipocrisia social. O longa também ajudou a consolidar o fenômeno dos Filmes da Meia Noite, espaços em que um público marginalizado se reunia para apreciar filmes pra lá de controversos
Em Female Trouble, Waters aprofunda sua crítica ao culto à beleza e à fama. Novamente estrelado por Divine, o filme narra a trajetória de Dawn Davenport, uma jovem obcecada por notoriedade a qualquer custo, que foge de casa no Natal após não ganhar os sapatos que desejava. A partir daí, mergulha em uma espiral de crimes, prostituição e uma espécie de modelagem de vanguarda, sob a tutela de proprietários de salões de beleza sádicos que defendem a máxima de que “crime é beleza”. A narrativa, fragmentada e caótica, acompanha sua ascensão e queda em um mundo onde a violência e o crime são recompensados com atenção midiática. Aqui, o grotesco ganha contornos mais estruturados, e Waters começa a refinar sua estética sem abrir mão do choque — literalmente.
A performance de Divine é central: exagerada, teatral e absolutamente magnética, ela encarna uma crítica viva a uma sociedade que glamouriza o escândalo. O filme antecipa discussões contemporâneas sobre celebridade, cultura de massa e a espetacularização da violência. Além disso, Divine também interpreta o personagem masculino Earl Peterson, demonstrando um alcance artístico que vai além da persona drag.
Por fim, Desperate Living encerra a trilogia com uma fábula ainda mais absurda e politicamente carregada. Diferentemente dos anteriores, Divine não protagoniza, pois estava envolvida com uma peça teatral, mas o seu espírito anárquico permanece intacto. A narrativa acompanha uma dona de casa que, após cometer um crime, foge para uma comunidade governada por uma tirana grotesca chamada Carlotta. O filme mistura elementos de conto de fadas distorcido com sátira social, criando um universo onde as normas são invertidas e o caos se torna regra. Waters explora temas como opressão, poder e exclusão social, sempre filtrados por seu humor ácido e por uma estética deliberadamente precária. A “feiura”, aqui, assume um caráter político: um gesto de recusa às narrativas limpas e moralmente confortáveis do cinema tradicional.
A trilogia, como um todo, está profundamente enraizada no espírito do cinema underground dos anos 1970, dialogando com movimentos contraculturais e com a cena queer emergente da época. Waters, ao lado de sua trupe de colaboradores — os chamados “Dreamlanders” —, construiu um estilo próprio, marcado por atuações exageradas, roteiros provocativos e uma produção propositalmente rudimentar.
Além disso, a presença de Divine é fundamental para compreender o impacto da trilogia. Como performer drag, ela rompeu barreiras de gênero e representação em um período em que essas discussões ainda eram amplamente marginalizadas e que quando ocorriam, eram silenciadas . Sua colaboração com Waters abriu espaço para narrativas queer que não buscavam aceitação, e sim confronto. Enquanto Drag Queens da época procuravam replicar a feminilidade extrema, Divine abraçava o exagero absoluto
É importante notar que o “trash”, em John Waters, não deve ser entendido apenas como algo de baixo valor, mas como uma estética deliberada que subverte hierarquias culturais e tradicionais. Ao abraçar o exagero, o grotesco e o absurdo, ele transforma o lixo em linguagem, o escândalo em discurso e o riso em crítica. Sua trilogia não é apenas um conjunto de filmes provocativos, mas um projeto artístico coeso que questiona o que consideramos aceitável, belo ou moral. Cineastas, artistas e performers ainda encontram em Waters uma referência de liberdade criativa e ousadia estética.

