Maurício de Sousa talvez seja um dos brasileiros mais memoráveis de que se tem notícia. O cartunista foi responsável pela criação da Turma da Mônica, uma saga infantojuvenil que atravessou décadas, fronteiras e oceanos, tornando-se um dos maiores patrimônios culturais do país. O empresário transformou suas memórias de infância em Mogi das Cruzes em um verdadeiro império criativo, admirado por crianças e adultos. No ano em que essa lenda completa 90 anos, o diretor e roteirista Pedro Vasconcelos propõe um mergulho sensível nas origens do autor e nas múltiplas inspirações que deram vida ao seu vasto panteão de personagens.

A cinebiografia reconta a infância imaginativa de Maurício, o início de sua carreira e o processo de criação da garota dentuça que viria a povoar o imaginário brasileiro. Do jornalista policial ao cartunista consagrado; do menino que aprendeu a ler com gibis ao homem que ajudou a alfabetizar gerações inteiras. Ao percorrer marcos importantes da cultura brasileira, o filme mostra como o império de Maurício de Sousa ganhou forma sem jamais perder o seu inconfundível “jeitinho” nacional.

Mauro Sousa, um dos filhos de Maurício, interpreta o pai com leveza e um sorriso contagiante. Ainda que, em alguns momentos, a atuação soe ligeiramente canastrona — especialmente ao tentar reproduzir os trejeitos e a voz do autor —, há afeto e honestidade em sua composição. O elenco conta ainda com Elizabeth Savalla no papel de Vó Dita, figura fundamental para a formação emocional e criativa de Maurício. O filme adota uma abordagem criativa ao estabelecer paralelos entre a vida do autor e suas criações: Marilene, a primeira esposa de Maurício, é retratada como uma mulher explosiva, que gira objetos nas mãos de forma muito semelhante à Mônica ao arremessar o Sansão. As escolhas de figurino e direção de arte também colaboram para tornar essas conexões mais evidentes.

O longa está longe de representar uma inovação estética no cinema brasileiro contemporâneo. Pelo contrário, aparenta ser uma produção segura e contida, com orçamento limitado e poucas variações visuais para traduzir as ideias brilhantes de Maurício. Predominam enquadramentos fechados, locações urbanas e o uso de sons genéricos — ainda que a trilha musical dialogue adequadamente com o universo já estabelecido pelo próprio autor. O roteiro abraça o pastelão e o caricato, assumindo sem pudores sua função principal: a de homenagear. O filme é, em todas as instâncias, um tributo afetuoso a um dos cartunistas mais memoráveis do mundo, sem grandes ambições além disso.

Ainda que não se destaque pela ousadia estética ou narrativa, a cinebiografia cumpre com dignidade seu propósito fundamental: celebrar a trajetória de um criador cuja obra ultrapassou o entretenimento e se tornou parte da formação cultural do Brasil. O filme opta por um caminho seguro, afetivo e acessível, priorizando a memória, o reconhecimento e a gratidão. Ao final, o espectador não encontra uma obra revolucionária, mas um gesto sincero de reverência — e, por vezes, isso é mais do que suficiente.

A grandiosidade de Maurício de Sousa não reside apenas na longevidade de sua carreira ou no sucesso comercial de seus personagens, mas na capacidade rara de dialogar com diferentes gerações sem perder relevância. Sua obra moldou imaginários, alfabetizou crianças, refletiu transformações sociais e construiu uma identidade visual genuinamente brasileira. Maurício criou um universo no qual o cotidiano simples se torna épico, onde infância, humor e afeto coexistem com naturalidade. Mais do que um cartunista, ele se consolidou como um verdadeiro cronista da infância brasileira .