Publicado em 1847, O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, é um romance que desafia as convenções do sentimentalismo vitoriano. Adaptado inúmeras vezes — de clássicos como o filme de William Wyler a minisséries da BBC —, o livro retorna ao cinema sob as lentes de Emerald Fennell, diretora e roteirista premiada, conhecida por Promising Young Woman e Saltburn. Desde o anúncio, o projeto tem provocado debates entre fãs da obra original. A nova versão promete revisitar essa história trágica, enfatizando a relação obsessiva e autodestrutiva entre dois amantes marcados por diferenças sociais e emocionais profundas.

Catherine Earnshaw vive no lar ancestral de sua família, em Wuthering Heights, nas charnecas de Yorkshire. Ali, ela e Heathcliff — um jovem criado como membro da família — reprimem a atração que sentem um pelo outro devido às barreiras impostas por classe e posição social. Quando Cathy decide se casar com o rico Edgar Linton, Heathcliff desaparece. Cinco anos depois, ele retorna misteriosamente enriquecido — e a obsessão que os une permanece intacta, ainda mais corrosiva com o passar do tempo.

Com Saltburn, Fennell já havia deixado explícito seu interesse em explorar obsessões — sejam elas carnais, emocionais ou ligadas ao poder. Ao revisitar o romance de Brontë sob a ótica de um pseudo–thriller erótico, a diretora imprime uma visão particular à narrativa. Ainda que o filme não alcance um nível de intensidade ou transgressão capaz de realmente chocar, ele reforça a história como um estudo sobre desejo, domínio e ressentimento. Ao acrescentar uma camada de luxúria à trama, a adaptação torna-se mais provocativa, embora nem sempre mais profunda.

Embora Fennell tenha declarado o desejo de transformar o filme no “Titanic desta geração”, evocando o impacto cultural de Titanic, sua obra parece dialogar mais diretamente com mentes atormentadas e amores doentios do que com o romantismo épico. A diretora toma diversas liberdades criativas, reinterpretando personagens e alterando elementos do romance — como a possível origem romani de Heathcliff —, além de condensar ou modificar trechos significativos da narrativa original. Tais escolhas podem desagradar leitores mais fiéis, mas também permitem que o filme funcione como uma obra independente, capaz de atrair um público menos familiarizado com o texto literário.

 

A produção não busca um realismo estritamente vitoriano. Pelo contrário, apresenta um design de produção e figurinos vibrantes e excêntricos, que oscilam entre o opulento quase fantasioso e o sensual carregado de simbolismo. Essa estilização reforça a proposta estética da diretora, ampliando o caráter febril da narrativa. Durante a campanha de divulgação, materiais promocionais estabeleceram paralelos visuais com Gone with the Wind, influência perceptível também em cena, especialmente no uso dramático das cores, nos enquadramentos amplos e em determinadas escolhas de composição.

No elenco, Margot Robbie interpreta Cathy como uma jovem mimada, conflituosa e dotada de um carisma cuidadosamente calculado, embora lhe falte a intensidade visceral que a personagem exige. Jacob Elordi entrega uma performance sólida como Heathcliff, ainda que por vezes contida demais ; se assemelhando mais a um bad-boy desprezado do que com um homem trágico. Já Hong Chau, no papel de Nelly, cresce progressivamente ao longo da narrativa e domina os momentos finais, confrontando os protagonistas com firmeza e tornando-se o grande destaque do filme. O elenco conta ainda com Alison Oliver, Ewan Mitchell, Martin Clunes e Owen Cooper.

A versão de Emerald Fennell para O Morro dos Ventos Uivantes não pretende ser uma adaptação definitiva ou fiel, mas sim uma releitura estilizada e contemporânea de um clássico sobre obsessão e autodestruição. Ao privilegiar a estética e a sensualidade em detrimento do rigor histórico e da complexidade psicológica do romance original, o filme divide opiniões, mas reafirma a vitalidade da obra de Emily Brontë.