“O Agente Secreto”, filme de Kleber Mendonça Filho, quebrou recordes e conquistou indicações históricas ao 98º Academy Awards, concorrendo em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e a inédita Direção de Elenco. Essas indicações — somadas às vitórias obtidas ao longo da temporada até aqui — colocam o longa em um lugar legítimo de celebração dentro do cinema brasileiro. No entanto, ao contrário de ‘Ainda Estou Aqui’, “O Agente Secreto” enfrenta uma concorrência mais pulverizada e um contexto político-cultural distinto. Neste texto, propomos comparar as jornadas de ‘O Agente Secreto’ e ‘Ainda Estou Aqui’, analisando se o cinema brasileiro poderá, mais uma vez, fazer história nos próximos meses.
“O Agente Secreto” acompanha a trajetória de Armando, um professor foragido que vive em Recife durante o governo do general Ernesto Geisel. Sob o pseudônimo de Marcelo e convivendo com outros párias sociais, ele acaba se envolvendo em mais confusões do que previa. Às vésperas do Carnaval, cercado por uma dupla de assassinos de aluguel, nada é exatamente o que parece. O longa se ancora no neo-noir, navegando por águas semelhantes às de Ainda Estou Aqui, mas com uma linguagem mais alegórica e violenta, prometendo disputar espaço com diversos favoritos da temporada — de atores em busca de seu primeiro Oscar a homenagens tardias a nomes já consagrados pela indústria.
1 — Diretores e Atores
Kleber Mendonça Filho dirigiu ‘Bacurau’, ‘Aquarius’ e outros filmes que, apesar do reconhecimento internacional, foram ignorados pela Academia na categoria de Filme Internacional. Sua parceria com Wagner Moura não lhe rendeu uma indicação ao Oscar de direção, mas consolidou ambos como figuras de prestígio no circuito da temporada. Wagner Moura, primeiro ator brasileiro a vencer o Globo de Ouro e agora indicado ao Oscar, não é estranho ao mercado internacional, sendo amplamente reconhecido além do Brasil por sua atuação em ‘Narcos’.
Essa configuração contrasta com a de ‘Ainda Estou Aqui’. Enquanto Fernanda Torres era um nome relativamente desconhecido em Hollywood, Walter Salles já possuía histórico com a Academia. Herdeiro do Itaú-Unibanco, Salles figura entre os diretores mais ricos do mundo — atrás apenas de nomes como George Lucas e Steven Spielberg — e sua presença é frequentemente apontada como um trunfo estratégico em campanhas tradicionais do Oscar. Kleber Mendonça Filho, por outro lado, constrói uma campanha muito mais ideológica do que financeira.
Uma diferença central entre as duplas Salles/Torres e Kleber/Wagner reside na narrativa política. Enquanto os envolvidos em Ainda Estou Aqui mantiveram posicionamentos públicos mais moderados e politicamente “seguros” em entrevistas à grande mídia americana, a equipe de ‘O Agente Secreto’ não hesitou em adotar um discurso diferente, chamando o ex-Presidente Jair Bolsonaro de fascista e criticando abertamente Donald Trump. Esse posicionamento pode ser um trunfo junto à ala liberal da Academia, mas também representa um risco frente ao eleitorado mais conservador — especialmente o americano.
2 — Abordagem e Gênero
Ambos os filmes se passam durante a Ditadura Militar brasileira (1964–1985), mas adotam abordagens radicalmente distintas. ‘Ainda Estou Aqui’, baseado na história de Eunice Paiva, retrata o regime de maneira sóbria e indireta: a tortura não é mostrada, apenas sugerida; helicópteros e tanques surgem de forma discreta, quase fantasmagórica. Já em ‘O Agente Secreto’, embora a palavra “ditadura” raramente seja dita, a brutalidade do regime é escancarada: corpos são lançados em rios, tubarões aparecem mortos com restos humanos — imagens que sugerem vítimas da repressão. A violência, aqui, é implicitamente explícita.
Essa diferença se reflete também na representação dos generais-presidentes. Em ‘Ainda Estou Aqui’, o governo de Emílio Garrastazu Médici se manifesta de forma quase abstrata — um grande retrato que observa Eunice durante uma visita ao banco, além de menções breves. Há uma espécie de reverência silenciosa ao período conhecido como os “Anos de Chumbo”. Em ‘O Agente Secreto’, por sua vez, retratos de Ernesto Geisel surgem em diferentes tamanhos e ambientes, criando uma atmosfera quase orwelliana do “olho que tudo vê”. Mesmo sem falas diretas, sua presença é constante, opressiva, vigiando o personagem de Wagner Moura.
Outra distinção fundamental está na brasilidade. O filme de Mendonça Filho abraça a cultura pernambucana de forma intensa, o que pode encantar votantes internacionais, mas afastar parte do eleitorado americano mais conservador. ‘Ainda Estou Aqui’, por outro lado, enquadrou o drama do desaparecimento de Rubens Paiva sob uma linguagem universal, mais palatável à Academia. O gênero também pesa: embora ‘O Agente Secreto’ tenha quebrado recordes, não se tornou um fenômeno popular nos moldes do filme inspirado na obra de Marcelo Rubens Paiva.
3 — Prêmios e Concorrência
Na categoria de Filme Internacional, ‘O Agente Secreto’ ocupa posição semelhante à de ‘Emilia Pérez’: é o incumbente dois dos cinco principais prêmios da temporada — o Critics Choice Awards e o Globo de Ouro. A vitória de Wagner Moura, um feito histórico para o cinema brasileiro, impulsiona uma campanha semelhante à de Fernanda Torres. Até o momento, apenas Moura e Timothée Chalamet foram premiados entre os concorrentes.
No entanto, assim como ocorreu com Torres, a performance de Moura não foi indicada ao BAFTA nem ao SAG Awards, o que reduz significativamente suas chances — ainda que mínimas — de vitória no Oscar. Diferentemente de ‘Ainda Estou Aqui’, O Agente Secreto não enfrenta apenas um rival direto. Valor Sentimental, também distribuído pela NEON, surge como um forte concorrente ao prêmio internacional, e é compreensível que a distribuidora concentre esforços no longa norueguês dependendodo desempenho nos prêmios . Além disso, premiações como BAFTA e SAG, que ocorrem durante o período de votação do Oscar, tendem a favorecer produções europeias, ampliando as chances de filmes como Foi Apenas um Acidente e Valor Sentimental.
Na categoria de Melhor Ator, Moura disputa espaço com nomes fortes do cinema americano. Timothée Chalamet lidera as apostas por Marty Supreme; Leonardo DiCaprio e Michael B. Jordan representam produções populares da temporada; Ethan Hawke surge como a indicação de “legado”. A ausência de Moura em premiações-chave diminui suas chances, mesmo com o feito de ser, ao lado de Chalamet, um dos poucos vencedores até agora.
A trajetória de “O Agente Secreto” revela um cinema brasileiro mais ousado, político e autoral, disposto a confrontar não apenas seus concorrentes, mas também as convenções da própria Academia. Se Ainda Estou Aqui representou uma entrada estratégica, conciliadora e universal, o filme de Kleber Mendonça Filho aposta na fricção, na denúncia e na identidade cultural como forças centrais. Essa escolha pode limitar suas chances em algumas categorias, mas também consolida o longa como um marco estético e ideológico.
Independentemente dos resultados finais, o fato de um filme brasileiro disputar um espaço real na principal premiação do cinema mundial em uma mesma temporada já é histórico. Mais do que troféus, O Agente Secreto e Ainda Estou Aqui simbolizam um momento de visibilidade, maturidade e pluralidade do cinema nacional.

