Entre as 23 categorias do Academy Awards, a de Melhor Atriz é, ano após ano, a que desperta maior curiosidade. Em diversas edições recentes, a disputa costuma se concentrar em dois nomes que ganham força ao longo da temporada — como aconteceu com Michelle Yeoh e Cate Blanchett, Lily Gladstone e Emma Stone e, mais recentemente, Demi Moore e Mikey Madison. Na corrida para o Oscar de 2026, o favoritismo parece dividido entre a atuação clássica e de grande impacto de Jessie Buckley, em Hamnet, e a performance definidora de carreira de Rose Byrne, em ‘Se Eu Tivesse Pernas Te Chutaria’.
Dirigido e roteirizado por Mary Bronstein (parceira criativa e cônjuge de Ronald Bronstein, colaborador frequente dos irmãos Safdie e roteirista de Marty Supreme), o filme é um drama de sensibilidade distorcida que lança um novo e perturbador olhar sobre a maternidade. A obra se constrói menos como um retrato realista e mais como uma experiência sensorial de desgaste emocional, onde cada pequeno evento parece conspirar contra a sanidade de sua protagonista.
Linda é uma terapeuta empurrada aos seus limites: cercada por pacientes invasivos, presa a um casamento emocionalmente ausente e responsável por uma filha extremamente dependente em decorrência de um transtorno alimentar. Um dia, um enorme buraco surge no teto de seu apartamento, forçando Linda a se mudar para um hotel barato e impessoal. À beira de um colapso, ela revisita sua trajetória como mãe, esposa e profissional, enquanto o mundo ao seu redor parece empenhado em enlouquecê-la de vez.
‘Se Eu Tivesse Pernas Te Chutaria’ revisita a maternidade de maneira semelhante a ‘The Lost Daughter’, de Maggie Gyllenhaal, mas a trata — nada mais nada menos — como um filme de terror. O roteiro afiado de Bronstein apresenta Linda como alguém que claramente não está bem, cercada por circunstâncias que apenas agravam sua fragilidade. Não importa o quanto ela tente manter o controle: o mundo se mostra indelicado, cínico e hostil. Cada situação funciona como uma provação, seja o marido inconveniente, os pacientes irritantes ou até hamsters fujões, culminando em momentos que prometem chocar ou irritar parte da audiência.
Como sugerido desde o início, o filme encara o simples ato de viver em sociedade — e, sobretudo, de ser mãe — como uma experiência de horror psicológico. Linda força sorrisos, mantém fachadas e tenta preservar alguma normalidade em meio ao caos mental. Nesse sentido, o longa pode ser lido como um ‘anti-O Bebê de Rosemary’: enquanto Rosemary aceita sua maternidade mesmo diante do nascimento do Anticristo, tudo o que envolve a família de Linda se revela muito mais perturbador do que qualquer culto satânico. As fantasias visuais, o uso expressivo das cores e o buraco no apartamento reforçam uma atmosfera claustrofóbica, quase orgânica, que remete a um sistema digestivo em colapso — sufocante e desconfortável.
O filme se sustenta, sobretudo, na atuação fenomenal de Rose Byrne. Com olhos perdidos, sorrisos forçados e uma impressionante capacidade de envelhecer sua personagem por meio de sutis mudanças de postura, Byrne constrói uma figura profundamente humana e inquietante. Suas pausas — frequentemente associadas ao seu histórico na comédia — ampliam ainda mais a sensação de distorção e instabilidade emocional. O elenco de apoio também contribui de forma eficaz: Conan O’Brien surge como o terapeuta indiferente de Linda, Christian Slater interpreta o marido distante e A$AP Rocky aparece como o carismático James, oferecendo pequenos respiros em meio à tensão constante.
‘Se Eu Tivesse Pernas Te Chutaria’ é um retrato brutal e nada conciliador da maternidade como território de exaustão, culpa e horror cotidiano. Ao transformar a vida doméstica em um pesadelo psicológico, Mary Bronstein não busca conforto nem identificação fácil, mas sim confronto. Nesse cenário, Rose Byrne entrega uma das atuações mais corajosas e desconcertantes de sua carreira — uma performance que não pede empatia, mas exige atenção.

