Em 2021, na primeira edição do Oscar realizada após o difícil ano marcado pela pandemia de Covid-19, Chloé Zhao tornou-se a segunda mulher a vencer o prêmio de Melhor Direção, graças a ‘Nomadland’. Reconhecida por seu trabalho no cinema independente, Zhao retorna às previsões da categoria com seu mais novo longa, ‘Hamnet’, estrelado por Jessie Buckley e Paul Mescal. Ao recontar a história por trás da origem de ‘Hamlet’, o filme se debruça sobre temas como luto, amor e as raras conexões que surgem ao longo da vida.

Ambientado no interior da Inglaterra, o filme apresenta William Shakespeare como um tutor que se apaixona pela jovem mística Agnes Hathaway. Juntos, eles constroem uma família, que inclui o pequeno Hamnet. Quando o filho morre tragicamente, Agnes se fecha para o mundo, enquanto Shakespeare tenta elaborar sua dor por meio da escrita, desenvolvendo uma de suas peças mais célebres como forma de honrar a memória do menino.

Diferente de ‘Shakespeare Apaixonado‘, que explora o período elizabetano com artifícios típicos do cinema do fim do milênio e transforma o dramaturgo em uma espécie de popstar, ‘Hamnet’ adota uma abordagem mais direta e íntima. O filme carrega o peso de cada relação retratada, fazendo com que todos os acontecimentos tenham significado — desde o florescer do amor entre Agnes e William até as distintas reações diante da morte trágica de Hamnet. A escolha de focar majoritariamente no ponto de vista de Agnes é uma das grandes forças da obra, pois permite acompanhar sua relação com o mundo e reforça como a perda de um filho se torna ainda mais devastadora quando observada através do olhar da mãe.

O longa funciona como uma homenagem, em múltiplas camadas, a ‘Hamlet’. Uma das peças mais famosas da história ganha aqui uma nova leitura, apresentada como um tributo íntimo a Hamnet. A forma como o filme constrói essa conexão — aliada às performances sensíveis de Paul Mescal e Jessie Buckley — é profundamente emocionante. Os excertos citados carregam peso dramático e simbólico, funcionando como um fechamento de ciclos marcado por dor, memória e emoção.

A direção de Chloé Zhao dialoga com ‘Nomadland’ ao priorizar as pequenas expressões e os silêncios, ainda que as planícies desérticas sejam substituídas pelos densos e quase intocados bosques ingleses. Zhao demonstra grande habilidade na condução dos atores, contando essa tragédia de maneira intimista e melancólica, sem recorrer ao melodrama excessivo. O misticismo que envolve Agnes remete mais às ninfas e às criaturas da floresta do que à figura clássica da bruxa, conectando-a à natureza — algo que, naquele contexto histórico, era igualmente condenado e marginalizado.

Jessie Buckley é o verdadeiro farol do filme, entregando uma atuação arrebatadora como uma mãe em luto, cuja luz parece se apagar junto com a do filho. Suas cenas são intensas, emocionais e profundamente humanas. Paul Mescal interpreta Shakespeare como um acadêmico sensível e apaixonado, que enfrenta a dor de forma mais contida; seu papel é menos desafiador que o de Buckley, mas ainda assim comovente, revelando como alguns homens desmoronam silenciosamente diante da perda. O elenco coadjuvante também se destaca, com boas performances dos jovens Jacobi Jupe e Olivia Lynes, além da sempre excelente Emily Watson e de Joe Alwyn em um papel mais rústico.

Hamnet se estabelece como uma obra delicada, madura e profundamente sensível, que transforma uma tragédia pessoal em reflexão universal sobre perda, memória e criação artística. Ao deslocar o foco do mito de Shakespeare para as feridas íntimas que o moldaram, Chloé Zhao constrói um filme que valoriza o silêncio, o afeto e a dor não resolvida. Mais do que uma releitura literária, Hamnet é um retrato pungente de como o luto pode gerar tanto ruptura quanto legado — e de como a arte nasce, muitas vezes, das ausências mais dolorosas.