Após sete décadas de um reinado que atravessou guerras, revoluções culturais e avanços tecnológicos inimagináveis, a morte da Rainha Elizabeth II, em 8 de setembro de 2022, representou não apenas a perda de uma chefe de Estado, mas também simbolizou o encerramento de um dos ciclos históricos mais longos e emblemáticos da contemporaneidade, funcionando como um inevitável prego no caixão do século XX. Sua sucessão imediata por Charles III ocorreu em um contexto político já em transformação, poucos dias após a nomeação de Liz Truss como primeira-ministra — a terceira mulher a ocupar o cargo no Reino Unido. Esse encontro entre passado e presente delineia um momento de transição, no qual tradição e instabilidade política coexistem de forma quase simbólica. No evento em que seu centenário seria celebrado, revisitamos os altos e baixos de seu reinado e como sua presença constante por muitas décadas moldou a cultura pop.
Elizabeth ascendeu ao trono em 1952, aos 25 anos, em um mundo ainda devastado pelas consequências da Segunda Guerra Mundial e imerso nas tensões ideológicas da Guerra Fria. Quando nasceu, não pretendia ascender ao trono, mas foi jogada para a linha de sucessão quando o tio abdicou e o pai se tornou rei . Jovem, inexperiente e lançada abruptamente ao epicentro do poder simbólico, a Rainha tornou-se, ao longo do tempo, uma figura de estabilidade em meio a um século marcado por rupturas e mudanças profundas (tanto dentro quanto fora do país).Sua imagem — inicialmente rígida e distante — foi sendo lapidada por crises internas, transformações sociais e pela crescente exposição midiática, que redefiniu não apenas sua figura pública, mas também o próprio papel da monarquia. Independentemente de posicionamentos favoráveis ou críticos à instituição monárquica, é inegável que Elizabeth II exerceu influência profunda sobre a cultura global. Sua presença constante atravessou gerações, tornando-se uma espécie de ponto fixo em um mundo em acelerada transformação. Ao mesmo tempo, a própria ideia de realeza passou a ser questionada, reinterpretada e, por vezes, satirizada — um reflexo da modernidade, que já não aceita símbolos de poder sem contestação.

Nas últimas décadas de sua vida, a relação entre fascínio e crítica ganhou novo fôlego com o sucesso da série premiada ‘The Crown’, que trouxe ao grande público uma dramatização sofisticada dos bastidores da família real britânica, desde seu casamento com Príncipe Philip até os desdobramentos das relações contemporâneas, como o casamento entre Charles III e Camilla Parker Bowles. A produção não apenas glamouriza os rituais e a estética da monarquia, mas também expõe suas fragilidades, tensões e contradições antes desconhecidas pelo grande público. Muito antes dessa revalorização, a monarca já era alvo de críticas, especialmente por parte da classe artística. Programas como ‘Spitting Image’ caricaturavam a Rainha de maneira irreverente, retratando-a como uma figura caricata e distante da reverência tradicional. Na música, essa contestação também se fez presente: a delicada ironia de “Her Majesty”, dos The Beatles, contrasta com o ataque direto e anárquico de “God Save the Queen”, dos Sex Pistols, que transformaram a monarquia em alvo de provocação política e cultural.
O cinema e o teatro também desempenharam papel fundamental na construção dessa narrativa contemporânea sobre Elizabeth II. Obras como The Queen, The Audience e novamente The Crown exploram diferentes momentos de seu reinado, enfatizando especialmente sua relação com os primeiros-ministros britânicos. Essas produções revelam uma monarca multifacetada: a jovem insegura diante de Winston Churchill; a líder madura em diálogo com Harold Wilson; e a soberana em tensão constante com Margaret Thatcher, cuja personalidade forte e convicções políticas frequentemente colidiam com a postura mais neutra e institucional da Rainha. Tais projetos deram oportunidade para que muitas atrizes talentosas demonstrassem sua versatilidade, entre elas Helen Mirren (vencedora do Oscar por interpretar a Rainha), Claire Foy, Olivia Colman, Imelda Staunton e Sarah Gadon.

Entre todos os episódios que marcaram seu reinado, poucos foram tão decisivos quanto a morte da Princesa Diana. A resposta inicial de Elizabeth, considerada fria e distante, gerou forte reação popular e midiática, obrigando a monarquia a se adaptar a uma nova lógica de comunicação — mais transparente, mais emocional e mais próxima do público. Esse momento pode ser entendido como um ponto de inflexão: a partir dele, a Casa de Windsor passou a compreender que sua sobrevivência dependia não apenas da tradição, mas também da capacidade de se reinventar. Nos últimos anos, Elizabeth enfrentou ainda o afastamento e as acusações de racismo envolvendo Príncipe Harry e Meghan Markle, além do escândalo envolvendo Andrew Mountbatten Windsor, associado ao caso do financista Jeffrey Epstein. Após as diversas revelações relacionadas aos arquivos do caso, o possível grau de conhecimento da Rainha sobre os acontecimentos tornou-se alvo de debates públicos.
Além das crises, Elizabeth também testemunhou — e, em certa medida, representou — o declínio do Império Britânico e a transformação do Reino Unido em uma nação multicultural e globalizada. Países antes integrados ao império conquistaram independência, enquanto a própria monarquia buscava redefinir seu papel dentro da Commonwealth. Nesse contexto, a Rainha atuou como um elo simbólico entre passado e presente, preservando rituais ancestrais ao mesmo tempo em que aceitava, ainda que gradualmente, as exigências do mundo moderno. A década de 1990 marcou simbolicamente o fim do “império que nunca se põe”, tendo como um de seus marcos a transferência de Hong Kong para a China em 1997.

O contraste é inevitável: Elizabeth II iniciou sua jornada em uma era de rádios e cartas escritas à mão e a concluiu em um mundo dominado por redes sociais, inteligência artificial e comunicação instantânea. Sua imagem, antes cuidadosamente controlada, tornou-se objeto de escrutínio constante em uma sociedade hiperconectada, sendo vista por muitos como uma figura quase familiar, semelhante a uma avó, enquanto outros mantiveram críticas até seus últimos dias. Embora fosse frequentemente elogiada por sua longevidade e vigor, os anos de isolamento social durante a pandemia de COVID-19, somados a crises sucessivas e à morte de seu marido, Príncipe Philip, impactaram profundamente a monarca. O anúncio de sua morte paralisou o mundo e gerou comoção em Londres, onde multidões se reuniram para prestar suas últimas homenagens à soberana de um reinado histórico.
Elizabeth II deixou um legado singular e praticamente incomparável. Sua longevidade no trono permitiu que ela não apenas testemunhasse, mas também incorporasse as transformações de seu tempo. Mais do que uma figura estática, foi um espelho da história — moldada por ela e, simultaneamente, moldando a forma como o mundo enxerga a monarquia.

