No Oscar de 2019, Jane Fonda subiu ao palco para apresentar o prêmio de melhor filme. A Atriz, conhecida por seu grande ativismo politco chamou o nome do filme de Bong Joon Ho, Parasita, e a reação em seguida foi de aclamação pelo alto escalão de Hollywood. Ao transitar com fluidez entre gêneros — da comédia ácida ao suspense, do drama familiar à tragédia — o filme constrói uma narrativa envolvente e perturbadora, que desmonta as ilusões de mobilidade social e expõe a violência silenciosa das hierarquias de classe. O reconhecimento histórico no Oscar, onde venceu quatro estatuetas consagrou não apenas uma obra-prima do cinema sul-coreano, mas como um dos filmes mais importantes do século XXI
A trama acompanha a família Kim, que vive espremida em um banjiha, um apartamento semi-subterrâneo comum das camadas mais pobres de Seul. Desempregados ou subempregados, os quatro membros da família sobrevivem com trabalhos precários, dobrando caixas de pizza e competindo com pragas urbanas. Mas uma oportunidade surge quando Ki-woo, o filho, consegue um emprego como professor particular na casa da rica família Park. A partir desse ponto, começa um jogo de infiltração: um a um, os Kim se instalam na mansão dos Park, assumindo identidades falsas, substituindo empregados e tentando desfrutat daquele ecossistema de luxo e aparente harmonia.
Bong Joon-ho ganhou o Oscar de Melhor Direção por esse filme. O cineasta constrói essa dinâmica sem maniqueísmos fáceis, mostrando a dualidade moral de ambas as classes: Os Park não são vilões caricatos; mas se mostram ingênuos em sua alienação esocial. Já os Kim não são heróis trágicos, mas sobreviventes que utilizam de ideias oportunistas para acessar um mundo que lhes foi negado. O que o filme escancara é que, em um sistema profundamente desigual, a moralidade torna-se um certo luxo
Visualmente, Parasita é uma aula de narrativa cinematográfica. A arquitetura dos espaços funciona como metáfora central da divisão de classes. A casa dos Park, moderna, ampla e iluminada, está localizada em um ponto alto da cidade, cercada por jardins e grandes janelas de vidro que permitem a entrada constante da luz natural. Já o banjiha dos Kim está parcialmente abaixo do nível da rua, com uma janela estreita que enquadra bêbados urinando, insetos e a sujeira urbana. O movimento vertical — subir e descer escadas, ladeiras e corredores — torna-se um elemento dramático recorrente, simbolizando a falsa promessa de ascensão social. A divisão de cenas onde os pobres e os ricos nunca estão do mesmo lado, escancara as decisões narrativas de Boon Joon-ho
A tonalidade fluída ocorre de forma orgânica: o que começa como uma farsa de “golpista” divertida e leve, gradualmente se transforma em um suspense de invasão domiciliar tenso, culminando em um horror visceral e uma tragédia melancólica. Esse equilíbrio é sustentado por uma direção de arte simbólica e um roteiro que utiliza a arquitetura da casa para delimitar as barreiras de classe, permitindo que o público sinta o humor do absurdo e o peso da desigualdade simultaneamente. Ao não se deixar prender por rótulos rígidos, o longa mantém o espectador em um estado constante de incerteza, tornando a experiência cinematográfica imprevisível e universalmente impactante.
As atuações são igualmente notáveis. Song Kang-ho, no papel do patriarca Kim Ki-taek, entrega uma performance contida, mas profundamente expressiva. Seu olhar carrega uma mistura de resignação e orgulho ferido, que explode nos momentos finais com força trágica. A família Kim funciona como uma engrenagem perfeita, com diálogos ágeis e cumplicidade convincente. Já os Park representam uma elite desconectada da realidade concreta, mas não desprovida de humanidade — o que torna o conflito ainda mais desconfortável.

Parasita é um retrato cruel, mas profundamente humano, das engrenagens do capitalismo tardio. Seu impacto global se deve ao fato de que, embora ambientado na Coreia do Sul, o filme fala uma língua universal: a da desigualdade, da humilhação cotidiana e da violência estrutural que molda as relações sociais no mundo contemporâneo. Bong Joon-ho não oferece soluções, apenas o espelho — e o reflexo que ele devolve é tão desconfortável quanto impossível de ignorar.

