Assim como foi apenas em 2002 que uma atriz negra levantou o Oscar de Melhor atriz, foi apenas em 2023 que a primeira mulher asiatica recebeu o mesmo prêmio, mesmo que não tenha sido a primeira a receber um Oscar em questão. Durante décadas, atrizes asiáticas foram confinadas a estereótipos exóticos, personagens secundárias ou simplesmente excluídas das narrativas de prestígio de Hollywood, com apenas tres recebendo essa honraria, com uma distancia de décadas entre a primeira e a segunda. Nesse contexto, as trajetórias de Miyoshi Umeki, Yuh-jung Youn e Michelle Yeoh não são apenas histórias individuais de sucesso, mas marcos simbólicos na lenta transformação da indústria cinematográfica. Separadas por mais de sessenta anos, suas vitórias revelam tanto a persistência da exclusão quanto a potência da resistência artística.

Quando Miyoshi Umeki venceu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 1958 por Sayonara (1957), tornou-se a primeira artista asiática a ganhar um Oscar de atuação. Nascida no Japão em 1929, Umeki construiu carreira inicialmente como cantora antes de migrar para o cinema e a televisão nos Estados Unidos. Sua presença em Hollywood ocorreu em um momento particularmente delicado: pouco mais de uma década após o fim da Segunda Guerra Mundial, quando as tensões entre Estados Unidos e Japão ainda reverberavam culturalmente.

Em Sayonara, Umeki interpretou Katsumi, uma jovem japonesa que se apaixona por um soldado americano. Sua atuação é marcada por delicadeza, vulnerabilidade e uma expressividade contida, que rompe com caricaturas racistas então comuns. Ainda assim, o papel estava inserido dentro de uma lógica narrativa que romantizava relações marcadas por hierarquias culturais e militares, alem de manter a fetichização do estrangeiro aos olhos do americano. A vitória de Umeki foi histórica, apesar disso a imagem de sua personagem manteve a isão estabelecida do que ficou conhecido como a ‘Mulher Libelula’- bibrlos delicados e subservientes; Após o Oscar, sua carreira não floresceu como a de outras vencedoras. Umeki enfrentou limitações estruturais profundas: poucos papéis complexos eram escritos para atrizes asiáticas, e a indústria continuava a privilegiar atores brancos em papéis orientais. Umeki, não tratou a vitoria como algo que a definisse: Quando enviuvou, situação que a afetou profundamente, ela rasurou o seu nome da estatueta e a jogou fora

Mais de seis décadas depois, em 2021, Yuh-jung Youn venceu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Minari , tornando-se a primeira atriz sul-coreana a conquistar a estatueta.  Veterana do cinema e da televisão sul-coreanos, Youn já era uma artista consagrada em seu país. Em Minari, interpreta Soon-ja, uma avó irreverente que se muda da Coreia do Sul para os Estados Unidos para viver com a família da filha. Sua personagem  não é a avó frágil e silenciosa, mas uma mulher espirituosa com sua atuação misturando humor e melancolia

O contexto histórico também é crucial: A vitória de Youn ocorreu após o triunfo de Parasita (2019), que abriu as portas para o reconhecimento internacional do cinema sul-coreano, mesmo que nenhum dos talentos do filme tanham sido indicados. Diferentemente de Umeki, Youn não dependia de Hollywood para validar sua carreira: Ao subir ao palco, brincou com Brad Pitt – Produtor Ausente do filme – e declarou as demais atrizes o quão duro tinha trabalhado. A imprensa americana  no entanto, ficou mais preocupado em fazer perguntas sobre a atriz com Brad Pitt do que qualquer relação ao seu background; foi apenas com seu retorno a Coreia que os jornais começaram a publicar declarações relevantes para sua carreira.

Em 2023, Michelle Yeoh tornou-se a primeira mulher asiática a vencer o Oscar de Melhor Atriz por Everything Everywhere All at Once (2022). Esse momento foi amplamente interpretado como um divisor de águas. Nascida na Malásia e formada no cinema de ação de Hong Kong, Yeoh construiu uma carreira marcada por filmes como O Tigre e o Dragão (2000), que já havia indicado um novo tipo de visibilidade asiática no Ocidente, mas não nas categorias de atuação. Sua trajetória é distinta das anteriores porque ela não foi moldada inicialmente por Hollywood. Yeoh consolidou-se como estrela de artes marciais, desafiando dublês e executando suas próprias cenas de ação. Ao migrar para produções internacionais- como filmes do 007 e Memórias de uma Gueixa– enfrentou o desafio de romper com o rótulo da “atriz exótica” ou da especialista em artes marciais.

Em Everything Everywhere All at Once, ela interpreta Evelyn Wang, uma imigrante sino-americana comum que se vê atravessando múltiplos universos. O papel exige amplitude dramática, domínio físico e um incríveltiming cômico. Sim, é um filme caótico, mas quando é preciso, se carrega no drama, e Yeoh domina suas cenas, com incriveis coadjuvantes ao seu lado. 

Comparar Miyoshi Umeki, Yuh-jung Youn e Michelle Yeoh é observar três estágios da representação asiática no Oscar — pioneirismo, afirmação e protagonismo. Umeki venceu em um contexto de assimilação cultural; Youn, em um momento de reconhecimento do cinema asiático global; Yeoh, em uma era que finalmente admite a centralidade de narrativas não brancas.Contudo, as três compartilham algo fundamental: a capacidade de transformar limites em potência artística. Cada uma, a seu modo, desafiou as expectativas impostas às mulheres asiáticas na indústria cinematográfica. E cada vitória, embora isolada em seu tempo, contribuiu para redesenhar o imaginário coletivo. O Oscar, frequentemente criticado por sua exclusão histórica, torna-se, nesses casos, um palco de reescrita simbólica. Não se trata apenas de troféus individuais, mas de marcos culturais que ampliam o horizonte de quem pode ser visto, ouvido e celebrado.

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