O Kabuki é uma das formas mais emblemáticas do teatro tradicional japonês, marcado por uma estética de exagero visual, maquiagem elaborada e profunda integração com a música e a dança. Originalmente criado por mulheres no século XVII, o gênero passou a ser interpretado exclusivamente por homens após proibições impostas pelas autoridades da época, o que deu origem à figura do onnagata — atores especializados em papéis femininos. Mais do que simples intérpretes travestidos, os onnagata desenvolveram uma técnica sofisticada que não busca reproduzir a mulher real, mas encarnar uma ideia idealizada de feminilidade, construída por meio de gestos delicados, voz modulada e presença cênica altamente estilizada. É nesse universo que se insere Kokuho, recente sucesso do cinema japonês, que explora esse mundo artístico em uma narrativa na qual a busca pela perfeição conduz à queda e à traição.

Ambientado na Nagasaki do pós-guerra, o filme acompanha Kikuo, filho de um chefe da Yakuza assassinado, que passa a ser criado como aprendiz pelo renomado ator de Kabuki Hanai Hanjiro. Ao lado do irmão adotivo, Shunsuke, Kikuo domina os palcos e conquista notoriedade inesperada. Contudo, laços de sangue, rivalidades silenciosas e sombras do passado começam a assombrar o jovem artista das maneiras mais imprevisíveis, transformando a ascensão artística em um percurso repleto de tensões e conflitos emocionais.

Como um todo, o filme funciona como um tributo ao teatro Kabuki. Cada enquadramento é construído com extremo cuidado, muitas vezes transformando o palco em um espaço narrativo autônomo, quase como um filme dentro do próprio filme. A direção demonstra atenção ao contextualizar o enredo e os temas das peças encenadas antes de apresentar seus trechos, permitindo que o espectador compreenda plenamente o significado dramático de cada performance. Em uma obra com quase três horas de duração, boa parte do tempo é dedicada à encenação de diferentes espetáculos dessa tradição. Se Memórias de uma Gueixa funcionou como um ensaio estético que dialogava com certo olhar orientalista, esta produção japonesa oferece um mergulho visual marcado por respeito, precisão histórica e sensibilidade cultural.

Embora dialogue com o arquétipo do artista obcecado — recorrente no cinema —, Kokuho vai além dessa estrutura. O filme reflete sobre a arte e sobre o peso do legado, examinando como decisões tomadas no passado reverberam ao longo dos anos. Com ecos que lembram tragédias shakespearianas, a narrativa aborda traição, ciúme, talento e as diferenças de tratamento entre um herdeiro de sangue e um filho adotivo. A rivalidade entre Kikuo e Shunsuke é menos explícita do que emocional, construída em silêncios, expectativas e frustrações acumuladas.

Ainda que não seja um filme explicitamente queer, há um subtexto instigante sobre masculinidade e suas expectativas sociais. Kikuo e Shunsuke vestem-se como mulheres em cena, mas isso não determina nem questiona diretamente suas sexualidades. Em um contexto em que o conceito de masculinidade pode ser rígido e, ao mesmo tempo, frágil, a obra surpreende ao recusar julgamentos simplistas, preferindo explorar a complexidade da identidade performática.

Indicado ao Oscar na categoria de Melhor Maquiagem e Penteado, o trabalho de caracterização merece destaque. A maquiagem — elemento central no Kabuki — revela camadas da cultura japonesa e reforça o caráter etéreo das performances. Impressiona também a maneira como os atores interpretam seus personagens em diferentes fases da vida com o auxílio de uma equipe que opta por sutileza em vez de próteses exageradas, privilegiando um envelhecimento convincente e delicado.

No elenco, Ryo Yoshizawa interpreta Kikuo com intensidade contida, transmitindo a pressão esmagadora que recai sobre o personagem e sua sucessão de erros motivados por ambição e insegurança, sem jamais apagar seu amor pela arte. Ryusei Yokohama dá vida a Shunsuke, inicialmente mais leve e despreocupado, mas forçado a amadurecer diante das circunstâncias. Já Ken Watanabe, como Hanai Hanjiro, oferece uma performance coadjuvante de grande peso dramático, reforçando a autoridade e a ambiguidade moral de seu personagem. O elenco se completa com Shinobu Terajima, Mitsuki Takahata e Min Tanaka, que enriquecem a narrativa com atuações sólidas e nuances emocionais.

Em conclusão, Kokuho não é apenas um filme sobre o Kabuki, mas uma reflexão sensível sobre arte, herança e identidade. Ao entrelaçar tradição e drama humano, a obra transforma o palco em metáfora da própria vida: um espaço onde máscaras revelam mais do que escondem e onde a busca pela perfeição pode ser, simultaneamente, redenção e ruína. Trata-se de um tributo à permanência da cultura japonesa e à complexidade das relações humanas, reafirmando o poder do cinema como extensão da própria performance teatral.