De 1993 a 2020, Ruth Bader Ginsburg serviu na Suprema Corte dos Estados Unidos, juntando-se a Sandra O’Connor como uma das primeiras mulheres a integrar esse tribunal. Ginsburg, no entanto, transcendeu o cargo e se tornou um ícone cultural — seja por suas posições, que ajudaram a moldar a América no início do novo milênio, seja por sua presença firme em um ambiente historicamente dominado por homens. Sua morte, ocorrida meses antes da eleição que derrotaria Donald Trump em seu primeiro mandato, foi profundamente sentida em um país já fragilizado pela pandemia. Lançado em 2018, Suprema não se limita a narrar a trajetória de Ginsburg. Dirigido por Mimi Leder, o longa se constrói como um drama jurídico que pulsa com a urgência de seu tempo.
Em um universo jurídico dominado por homens, a jovem advogada Ruth Bader Ginsburg enfrenta portas fechadas e um sistema que institucionaliza a discriminação de gênero. Ao lado de seu marido, Martin, ela encontra um caso desafiador que pode alterar o curso da história: a defesa de um homem que teve negado o direito de ser cuidador por ser do sexo masculino.
Desde seus primeiros minutos, Suprema estabelece um contraste poderoso: a imagem de uma jovem Ruth, interpretada com precisão contida por Felicity Jones, atravessando corredores ocupados majoritariamente por homens. O filme captura com delicadeza esse desconforto estrutural — olhares que pesam, silêncios que excluem, piadas que diminuem. Não há necessidade de grandes discursos; a opressão se manifesta nos detalhes. A narrativa ganha densidade ao explorar a relação entre Ruth e seu marido, Martin Ginsburg, vivido com charme e humanidade por Armie Hammer. Ao contrário de muitos retratos tradicionais, aqui o casamento não é um obstáculo, mas um espaço de parceria rara. Martin não apenas apoia Ruth — ele a compreende, incentiva e celebra. Essa dinâmica subverte expectativas e se torna um dos eixos emocionais mais sólidos do filme, oferecendo uma visão de amor construída sobre igualdade em um mundo que insiste na desigualdade.
O roteiro, assinado por Daniel Stiepleman, constrói esse arco com inteligência, transformando termos técnicos em instrumentos de tensão dramática. É no campo jurídico que o filme mais se aproxima de um thriller. As cenas de tribunal são conduzidas com ritmo, privilegiando o embate de ideias — palavras tornam-se golpes, argumentos, escudos. Ainda assim, há momentos em que a encenação parece excessivamente polida, quase didática. A necessidade de tornar a história acessível ao grande público, por vezes, suaviza as arestas mais complexas da luta jurídica. Em certos trechos, a narrativa flerta com o convencional, como se temesse confiar plenamente na força de seu próprio material.
O filme demonstra uma consciência histórica clara: sabe que está lidando com o nascimento de uma mudança estrutural. Essa percepção se traduz em escolhas simbólicas eficazes. A câmera frequentemente enquadra Ruth em espaços que a comprimem — portas estreitas, salas dominadas por homens, tribunais que parecem grandes demais para sua figura. Aos poucos, conforme sua voz ganha força, esses espaços se transformam. Não é apenas Ruth que cresce; é o mundo ao seu redor que se reconfigura. Felicity Jones traduz essa complexidade com um desempenho que evita o heroísmo fácil. Sua Ruth não é uma figura inalcançável, mas metódica, persistente e, por vezes, exausta — justamente por isso, profundamente humana.
Outro aspecto relevante é a forma como Suprema dialoga com o presente. Embora ambientado entre as décadas de 1950 e 1970, o filme nunca soa distante. As discussões sobre igualdade de gênero, representatividade e justiça permanecem assustadoramente atuais. Há algo de inquietante nessa permanência — como se o filme não estivesse apenas contando uma história do passado, mas lembrando que certas batalhas ainda estão em curso.
Ruth Bader Ginsburg (1933-2020) em uma participação especial na cena final do filme
Visualmente, a direção de Mimi Leder opta por uma estética clássica, quase discreta. Não há excessos estilísticos — a força do filme reside na clareza de sua narrativa. Essa escolha pode ser vista como uma limitação, especialmente quando comparada a cinebiografias mais ousadas. No entanto, também garante que o foco permaneça onde deve estar: na trajetória de Ruth e na transformação que ela ajudou a iniciar. Em alguns momentos, Suprema parece consciente demais de sua função inspiradora, o que o leva a sublinhar certas conquistas com um entusiasmo quase pedagógico. Ainda assim, essa inclinação não compromete o impacto geral — apenas revela a dificuldade de equilibrar fidelidade histórica e construção dramática.
No fim, Suprema é um filme sobre linguagem — sobre quem tem o direito de falar, de ser ouvido, de definir as regras do jogo. A jornada de Ruth Bader Ginsburg não é apresentada como um gesto isolado de genialidade, mas como um processo contínuo de resistência. Cada argumento construído, cada caso enfrentado, cada palavra pronunciada em tribunal compõe um movimento maior: o de reescrever as bases de um sistema.

