Exibida originalmente pela Rede Globo entre abril e outubro de 2017, A Força do Querer foi escrita por Glória Perez e dirigida por Rogério Gomes. A obra tornou-se um fenômeno de audiência e de discussão social, consolidando-se como um dos maiores sucessos da teledramaturgia brasileira na década de 2010. Fiel ao estilo característico de sua autora, a trama destacou-se ao abordar temas complexos, contemporâneos e polêmicos — como identidade de gênero, vício em jogos, tráfico de drogas, conflitos amorosos e dilemas éticos — sempre inseridos em um contexto de forte apelo emocional e humano. Glória Perez constrói um quadro de personagens interligados por uma questão central: o desejo, a vontade e a luta de cada um para afirmar sua identidade e realizar seus sonhos, mesmo que isso implique romper com tradições, famílias e expectativas sociais. A “força do querer” do título é, portanto, uma metáfora poderosa sobre a determinação e a busca de cada indivíduo por sua verdade interior.

Ambientada em diferentes universos — desde a elegância das zonas nobres do Rio de Janeiro até a vida no interior do Pará e o cotidiano das comunidades urbanas —, a novela reúne histórias aparentemente distintas, mas que se entrelaçam através de paixões intensas, conflitos morais e enfrentamentos pessoais. 

A narrativa explora a força interior que move cada ser humano. O “querer” que atravessa a história é tanto individual quanto coletivo: o querer ser aceito, amado, reconhecido, pertencer, e sobretudo, o querer viver de acordo com a própria essência. Cada arco dramático — do amor obsessivo de Bibi ao desejo de liberdade de Ritinha, passando pela afirmação de identidade de Ivan — reflete facetas distintas de uma mesma busca universal: a do autoconhecimento.

A direção de Rogério Gomes, combinada à fotografia sofisticada e à trilha sonora envolvente, contribuiu para o tom moderno e quase cinematográfico da produção. O texto de Glória Perez manteve sua marca característica: diálogos densos, reviravoltas emocionais e a capacidade de equilibrar drama social com entretenimento popular. Apesar de abordar diversos temas simultaneamente e de maneira comovente, alguns tópicos da novela acabaram por se tornar datados com rapidez. Na época de seu lançamento, por exemplo, o fenômeno conhecido como “Jogo da Baleia Azul” — associado a automutilação e comportamento suicida entre jovens — ganhou notoriedade, e Glória Perez incorporou esse aspecto à trama, buscando dialogar com o contexto social do momento.

Entre os núcleos mais marcantes de A Força do Querer, destacam-se três protagonistas femininas, cada uma simbolizando uma dimensão distinta da vontade humana: Bibi (Juliana Paes), Jeiza (Paolla Oliveira) e Ritinha (Isis Valverde). Embora representem facetas diferentes, as três personagens encarnam formas de empoderamento e autonomia. A Bibi de Juliana Paes e a Jeiza de Paolla Oliveira, colocadas muitas vezes em oposição, promovem um debate sobre os limites da ética e até onde cada um está disposto a ir em nome do que considera certo. Ritinha, por sua vez, é sedutora, imprevisível e envolta em um misticismo lúdico, com o charme de Valverde conferindo credibilidade à personagem.

Outro destaque fundamental é Ivan (Carol Duarte), cuja jornada de autodescoberta como homem trans foi um marco na televisão brasileira. A narrativa tratou com sensibilidade o processo de transição de gênero, expondo sofrimentos, dúvidas e conflitos familiares que acompanham essa trajetória. A atuação de Carol Duarte foi amplamente elogiada, e o núcleo de Ivana/Ivan abriu espaço para discussões importantes sobre identidade, respeito e representatividade. Maria Fernanda Cândido, no papel de Joyce, interpreta uma mãe que inicialmente se nega a aceitar a verdade do filho, mas que eventualmente aprende a fazê-lo de forma incondicional.

A Força do Querer tornou-se um fenômeno cultural e social. A obra repercutiu intensamente nas redes sociais, gerando debates sobre temas até então pouco explorados na teledramaturgia brasileira, como transexualidade, empoderamento feminino e a romantização do crime. O público dividiu-se em torcidas apaixonadas — como as de Bibi e Jeiza — e refletiu sobre as escolhas das personagens com a mesma intensidade que elas demonstravam em cena. A novela foi indicada a diversos prêmios, tornou-se objeto de estudos acadêmicos e permanece lembrada como um dos grandes acertos da teledramaturgia recente. Ao abordar, com coragem e sensibilidade, assuntos delicados e complexos, a obra reafirmou o poder da televisão como espelho e agente de transformação social.

Mais do que uma história sobre amores e conflitos, A Força do Querer é um retrato das forças que movem o ser humano — o amor, o desejo, o medo, a ambição e a liberdade — e de como cada indivíduo escolhe lidar com elas. Glória Perez demonstra, mais uma vez, que a grandeza de uma novela reside em sua capacidade de refletir o mundo e, ao mesmo tempo, transformar quem o assiste.

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