A série ‘How to Get Away with Murder’  é um dos dramas televisivos mais marcantes da década de 2010,  por sua narrativa envolvente, seja pela complexidade psicológica de seus personagens ou pelas discussões sociais que levanta. Criada por Peter Nowalk e produzida por Shonda Rhimes — nome já consagrado por sucessos como Grey’s Anatomy e Bridgerton —, a série acompanha a brilhante, enigmática e muitas vezes implacável professora de Direito Penal Annalise Keating

No centro da trama está Annalise Keating, uma mulher negra poderosa, cuja presença desafia estereótipos históricos da televisão norte-americana. Interpretada por Viola Davis — que se tornou a primeira mulher negra a vencer o Emmy de Melhor Atriz em Série Dramática por esse papel —, Annalise é simultaneamente admirável e profundamente falha. Sua trajetória é marcada por traumas, vícios, perdas e uma luta constante entre o desejo de justiça e a necessidade de autopreservação. Ao humanizar uma figura que poderia facilmente cair no arquétipo da “advogada fria”, a série constrói um retrato multifacetado de poder, vulnerabilidade e sobrevivência.

Ao seu redor, gira um grupo de estudantes de direito selecionados para integrar seu prestigiado grupo, apelidado informalmente de “Keating Five”. À medida que se envolvem em crimes cada vez mais graves, suas identidades são corroídas, e a linha entre inocência e culpa se torna cada vez mais tênue. A série, nesse sentido, propõe uma reflexão perturbadora: até que ponto pessoas comuns podem ser levadas a cometer atos extremos quando pressionadas por circunstâncias extraordinárias?

Desde seu episódio piloto, a narrativa estabelece um ritmo não linear, alternando entre o presente e flashforwards que mostram eventos ainda não totalmente explicados — especialmente crimes envolvendo os próprios protagonistas. Esse recurso narrativo, que se tornaria uma assinatura da série, cria uma tensão constante e uma sensação de urgência, convidando o espectador a montar um quebra-cabeça moral e jurídico. 

Outro aspecto relevante de How to Get Away with Murder é sua abordagem de temas sociais. A série não se limita ao suspense jurídico; ela se debruça sobre questões como racismo estrutural, sistema penal desigual, violência policial, identidade de gênero e sexualidade. O relacionamento entre Connor e Oliver, por exemplo, é retratado com uma naturalidade e profundidade raras para a televisão aberta da época, contribuindo para a representatividade LGBTQIA+. Da mesma forma, a série aborda a experiência de Annalise como mulher negra em uma posição de poder, evidenciando as pressões e preconceitos que ela enfrenta tanto no âmbito profissional quanto pessoal.

A estética da série também merece destaque. A direção aposta em closes intensos, iluminação dramática e trilha sonora que amplifica o suspense e a carga emocional das cenas. Cada temporada é construída em torno de um grande mistério — geralmente um assassinato — cuja resolução só ocorre nos episódios finais, mantendo o público constantemente engajado. Essa estrutura, embora repetitiva em certa medida, funciona como um mecanismo eficaz de fidelização, criando uma espécie de ritual narrativo que se renova a cada ciclo.No entanto, ‘How to Get Away with Murder’ não está isenta de críticas. Alguns espectadores apontam que, ao longo das temporadas, a trama se torna excessivamente convoluta, com reviravoltas que por vezes sacrificam a verossimilhança em prol do choque dramático. Ainda assim, essa característica pode ser vista como parte de sua identidade: um melodrama jurídico que abraça o exagero como ferramenta narrativa.

Annalise Keating, com todas as suas contradições, permanece como uma das personagens mais complexas da televisão contemporânea — um símbolo de resistência, mas também de fragilidade humana.Assim, ‘How to Get Away with Murder’ transcende seu gênero ao propor uma reflexão incômoda: em um sistema marcado por desigualdades, quem realmente consegue “escapar” de um crime? E, mais importante, qual é o custo psicológico de carregar tais segredos? A série não oferece respostas fáceis, mas é justamente nessa ambiguidade que reside sua força duradoura.

Categorized in: