O mundo se despede de um cineasta visionário
O diretor David Lynch faleceu em 16 de janeiro de 2025, poucos dias antes de completar 79 anos. Visionário, Lynch utilizou o cinema de forma semelhante a Buñuel e Dali, criando narrativas fortes e visualmente impressionantes. Entre sua extensa e surrealista filmografia, destaca-se uma obra emocionante e melancólica que foge aos artifícios típicos de seu estilo: O Homem Elefante.
Seu segundo filme é baseado na história real de Joseph Merrick, um homem da Inglaterra vitoriana exposto em circos de aberrações devido às suas inúmeras deformidades. Quando desperta o interesse do médico Frederick Treves, a perspectiva de sua vida muda drasticamente. Ele passa a conviver com a alta sociedade inglesa, curiosa por suas características físicas. Merrick e Treves formam uma amizade sincera, enquanto outras pessoas do hospital começam a enxergar a bondade por trás de sua aparência incomum, embora para muitos ainda seja difícil vê-lo como mais que um “animal”.
Filmado em preto e branco, o longa transmite uma profunda melancolia desde as primeiras cenas, retratando uma Londres vitoriana fria e cruel. A apresentação de Merrick ao público é feita de maneira semelhante à introdução de monstros clássicos da Universal, como o Drácula de Bela Lugosi ou o Fantasma da Ópera de Lon Chaney, com uma revelação gradual e impactante da maquiagem que transforma o ator principal.
O filme aborda como pessoas com deficiências eram tratadas como atrações, tanto no circo quanto na ala hospitalar de Treves, traçando um interessante paralelo entre o médico e o abusivo mestre de cerimônias, Sr. Bytes. Isso suscita reflexões sobre ética e o tratamento de indivíduos marginalizados. Apesar das adversidades, a obra também retrata a compaixão de membros da alta sociedade, como a atriz Madge Kendall e a princesa de Gales, Alexandra.
Após o estilizado ‘Eraserhead’, Lynch demonstra em ‘O Homem Elefante’ sua habilidade de mesclar surrealismo com uma narrativa mais ancorada na realidade. O diretor utiliza imagens simbólicas, como elefantes envoltos em sombras, para pontuar momentos de sonhos e reflexões de Merrick.
Joseph Merrick é brilhantemente interpretado pelo saudoso John Hurt, cuja performance vulnerável contrasta com a interpretação mais fria e controlada de Anthony Hopkins no papel de Treves. Anne Bancroft, esposa do produtor Mel Brooks, também se destaca como Madge Kendall. Indicado a oito categorias do Oscar, incluindo Melhor Filme, o longa não venceu nenhuma, mas foi crucial para a criação da categoria de Melhor Maquiagem.
‘O Homem Elefante’ é, talvez, um dos filmes mais “seguros” de David Lynch, mas carrega os traços de um grande diretor. Sua história sobre capacitismo e ética no tratamento de pessoas marginalizadas continua relevante. A morte de Lynch marca o fim de uma era criativa e deixa uma lacuna em um cinema que cada vez mais carece de visões tão ousadas.
Descanse em Paz, David Lynch (1946-2025)