Íris Lettieri, falecida aos 84 anos, foi uma das vozes mais marcantes da comunicação brasileira, eternizada como a voz oficial dos aeroportos. Durante décadas, sua dicção impecável e seu timbre aveludado ecoaram em locais como o Galeão, Guarulhos e Santos Dumont, transmitindo informações com elegância. Muito além das simples mensagens aos passageiros, Íris transformou os avisos de embarque e desembarque em um símbolo cultural, sendo reconhecida nacional e internacionalmente como a presença que dava tranquilidade e sofisticação às viagens aéreas no Brasil.
Íris Lettieri Costa nasceu no Rio de Janeiro em 26 de agosto de 1941, filha de José Avelino da Costa, locutor da Rádio Cruzeiro do Sul, e de Josélia Lettieri, professora de piano, canto e dicção. Desde cedo, a palavra falada e a musicalidade estiveram presentes em sua vida, moldando a jovem que viria a se tornar uma das vozes mais marcantes da comunicação brasileira. Ainda nos anos 1950, iniciou sua trajetória como locutora de rádio, profissão dominada por homens até então. O talento logo a destacou, permitindo que ela conquistasse espaço e se tornasse pioneira: foi a primeira mulher a apresentar telejornais na televisão brasileira, atuando em emissoras como a TV Tupi, a TV Excelsior e, mais tarde, a TV Manchete.
Nos anos 1970, Íris consolidou-se como uma figura ímpar da comunicação ao ser convidada pela Infraero para ser a voz oficial do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro (Galeão). Seu timbre acolhedor foi cuidadosamente ajustado para transmitir calma e segurança aos passageiros, especialmente àqueles que tinham medo de voar. A iniciativa foi tão bem recebida que sua voz passou a ser reproduzida em outros aeroportos do país, como Guarulhos, Santos Dumont e Brasília.Sua projeção internacional foi tamanha que, em 1993, sua voz chegou a ser apontada por especialistas da área de comunicação como “a mais bonita do mundo”, dado que reforça sua singularidade. Em 1992, teve seu timbre usado sem autorização em uma faixa da banda norte-americana Faith No More, o que a levou a mover uma ação judicial contra o grupo. Paralelamente ao trabalho em aeroportos, Íris manteve carreira na televisão, foi modelo, cantora e atriz eventual, sempre transitando com charme entre diferentes linguagens midiáticas.

Ao longo da carreira, foi reconhecida com diversas homenagens, como o título de Personalidade Aeroportuária da Infraero (1995), o selo de qualidade da Abrajet–Rio (1995) e a prestigiosa Medalha Pedro Ernesto, concedida pela Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro (1996). Tais distinções comprovam a relevância de sua trajetória para a cultura e a comunicação do Brasil, colocando-a entre os nomes mais lembrados de sua geração. Íris foi, sobretudo, a personificação de uma época em que a voz tinha o poder de construir imagens, despertar emoções e se tornar patrimônio coletivo.
Se como voz oficial dos aeroportos Íris marcou gerações, foi na publicidade que ela mostrou outra faceta de seu carisma: a sensualidade. Em 1984, já aos 42 anos, foi convidada para protagonizar uma das campanhas mais ousadas e lembradas da história da propaganda brasileira. Trata-se da série de comerciais da BR Distribuidora, divulgando o lubrificante Lubrax, que ficaram conhecidos como a “contagem regressiva para o Carnaval de 1984”. A ideia da campanha era simples e brilhante: criar expectativa para a maior festa popular do país. Durante várias semanas, Íris aparecia em anúncios diários, informando quantos dias faltavam para o Carnaval. A cada comercial, tirava discretamente uma peça de roupa — brincos, echarpe, colar, tailleur, sapatos, blusa, meias —, sem jamais ultrapassar o limite da sugestão. O clima era de humor leve e charme elegante, centrado não apenas na imagem, mas também no timbre inconfundível de sua voz, que já se tornara conhecida de milhões de brasileiros.
No penúltimo dia da contagem, Íris surgia sentada em uma cadeira giratória, de frente para o encosto, o corpo oculto pela estrutura, sugerindo nudez, mas sem revelar nada. A expectativa, cuidadosamente construída, alcançou seu ápice no dia do Carnaval, quando a apresentadora aparecia enfim fantasiada, dançando ao som da batucada, numa celebração que simbolizava a explosão da folia.

A campanha fez história no último ano do regime militar . Foi considerada ousada, inovadora e memorável, unindo sensualidade, humor e brasilidade em doses equilibradas. Mais do que promover um produto, tornou-se um marco da publicidade nacional, lembrada até hoje como exemplo de criatividade e impacto cultural. Ao protagonizá-la, Íris mostrou que sua presença ia além dos microfones: ela sabia cativar, provocar e marcar o imaginário popular com gestos, palavras e olhares.
Íris Lettieri construiu uma carreira brilhante, sendo pioneira no jornalismo televisivo, referência absoluta na locução de aeroportos e presença marcante na publicidade. Sua trajetória é a de uma mulher que abriu caminhos em uma profissão masculina, emprestou voz e rosto à modernização da comunicação brasileira e soube transformar seu talento em patrimônio cultural. Sua voz, ao mesmo tempo acolhedora e firme, se tornou trilha sonora de viagens, programas de TV, anúncios e campanhas, atravessando décadas com frescor e memória afetiva. Íris provou que podia ser ao mesmo tempo a “voz do aeroporto” e a musa da folia. Assim, entre microfones, câmeras e comerciais, ela consolidou um legado de pioneirismo, charme e presença inconfundível — uma trajetória que ecoa até hoje, como o anúncio perfeito que nunca se esquece.

