Em junho de 2025, Dama Wintour chocou o mundo ao anunciar sua saída do cargo de editora-chefe da Vogue americana, após quase quatro décadas dedicadas à revista. Poucas figuras da moda contemporânea são tão reconhecíveis — e temidas — quanto Anna Wintour. Dos inseparáveis óculos escuros às decisões que moldam a indústria fashion global, Wintour foi mais do que a comandante da Vogue: tornou-se um ícone cultural, uma curadora de tendências e, simultaneamente, um dos rostos mais controversos da imprensa de moda. Sua trajetória é marcada por uma autoridade editorial quase mítica, conquistas inegáveis e um punhado de polêmicas que dividem opiniões.
Nascida em Londres, em 1949, filha do jornalista Charles Wintour, Anna cresceu no epicentro da elite cultural britânica. Desde cedo, esteve imersa no universo editorial, frequentando desfiles, galerias e redações. Essa bagagem, aliada a um instinto aguçado para o novo e o relevante, a levou rapidamente aos cargos mais altos do jornalismo de moda. Após passagens pelas versões britânica e americana da Harper’s Bazaar e da própria Vogue, ela assumiu, em 1988, a editoria da edição norte-americana da revista. Ao comparar as capas anteriores à sua gestão com as da chamada “Era Wintour”, nota-se um viés mais artístico e autoral, que se provou extremamente popular.

Sob sua liderança, a Vogue deixou de ser apenas uma publicação de moda para se tornar um verdadeiro fenômeno cultural. Wintour foi responsável por elevar modelos ao status de celebridades, abrir espaço para figuras do entretenimento nas capas da revista e democratizar o acesso ao conteúdo fashion, sem abrir mão do refinamento. Foi ela, por exemplo, quem colocou Kim Kardashian e Kanye West na capa da Vogue, em 2014 — decisão controversa à época, mas que antecipou uma tendência: a fusão definitiva entre moda, celebridade e influência digital.
Anna também desempenhou papel central na consolidação do Met Gala como o evento mais prestigiado da indústria da moda. Desde 1995, atua como curadora e anfitriã do baile anual, transformando o evento beneficente em um espetáculo global, transmitido e comentado em tempo real por milhões de pessoas. Cada look ousado que desfila pelas escadarias do Metropolitan Museum é, em última instância, autorizado — ou ao menos endossado — por ela.

Contudo, tamanho poder não veio sem críticas. A personalidade de Wintour é frequentemente descrita como fria, distante e inflexível. Sua figura inspirou a icônica personagem Miranda Priestly, vivida por Meryl Streep em O Diabo Veste Prada, filme baseado no livro de Lauren Weisberger, ex-assistente de Wintour. A personagem, uma editora tirânica e sofisticada, tornou-se um símbolo da exigência extrema no universo da moda. Embora Anna nunca tenha comentado diretamente sobre a semelhança — ainda que tenha tratado o assunto com humor ácido —, o estigma da chefe impiedosa persistiu. Funcionários e ex-colaboradores relataram, ao longo dos anos, uma cultura de trabalho baseada no medo e na obediência cega. Exigências de perfeição, e-mails enviados de madrugada e a ausência de elogios ajudaram a construir a imagem de uma líder temida, porém raramente amada.
Em 2020, com a ascensão relâmpago do movimento Black Lives Matter e a pressão por mudanças nos ambientes editoriais, Wintour enfrentou duras críticas. Foi acusada de manter a Vogue distante da inclusão de vozes negras e de perpetuar padrões estéticos eurocêntricos. Em resposta, pediu desculpas publicamente e prometeu reavaliar práticas institucionais dentro da Condé Nast, grupo editorial que comanda.

Ainda assim, é impossível falar da moda contemporânea sem citar Anna Wintour. Sua influência ultrapassa o universo das passarelas e alcança a arte, a política e o comportamento. Já foi conselheira de presidentes, defensora de causas como a luta contra a madonna-e-a-epidemia-de-aids-uma-reflexao-sobre-politica-celebridades-e-saude-publica/”>AIDS e incentivadora de novos talentos por meio do Vogue Fashion Fund, projeto que impulsiona designers emergentes. Mais que uma editora, Wintour é um arquétipo: o da mulher poderosa, estrategista e intransigente, que pavimenta o futuro sem pedir licença ao presente. Em uma indústria movida a reinvenções, ela permaneceu constante — uma esfinge de corte Chanel e palavras medidas, que observa, avalia e decide. Amar ou odiar Anna Wintour é quase irrelevante diante de um fato inegável: ela moldou o modo como o mundo vê — e consome — moda nos últimos 40 anos.

