Quando a Disney comprou a Fox em 2019, os entusiastas do Universo Cinematográfico da Marvel — que à época encerrava a bem-sucedida Saga do Infinito com Vingadores: Ultimato — passaram a ansiar pela integração de personagens e elementos que, até então, pertenciam exclusivamente à 20th Century Fox. Em 2025, após certa instabilidade narrativa, o UCM dá as boas-vindas à “Primeira Família da Marvel” em Quarteto Fantástico: Primeiros Passos.
Ambientado em um universo retrofuturista, o longa apresenta quatro cientistas que, após um acidente espacial, desenvolvem habilidades extraordinárias e tornam-se defensores do planeta. No entanto, a vida até então idílica desse Quarteto é colocada em risco quando Galactus — uma entidade devoradora de mundos — escolhe a Terra como seu próximo banquete. Diante da iminência da destruição de tudo o que mais prezam, essa família entra em ação antes que seja tarde demais.

Após diversas adaptações de recepção negativa, o Quarteto Fantástico retorna com estilo, em um universo permanentemente ancorado na estética dos anos 1960. Assim como o recente Superman de James Gunn, o filme dirigido por Matt Shakman — também responsável por Wandavision — opta por não recontar as origens do grupo. Em vez disso, propõe uma narrativa mais centrada e individual, com os personagens já estabelecidos, conhecidos e amados. Essa escolha permite o desenvolvimento de novos dilemas, como o impacto dos poderes dos Richards sobre o mundo e a gravidez de Sue Storm — uma trama que promete abalar as estruturas do MCU.
Após inúmeros projetos que fracassaram em atingir seu real potencial, Primeiros Passos oferece ao UCM uma lufada de ar fresco, reintroduzindo “velhos amigos” com equilíbrio: sem grandes surpresas quanto aos desenvolvimentos, mas com espaço para aprofundar certos poderes e personalidades. O filme não se apressa, lançando pequenas sementes narrativas que poderão ser exploradas no futuro, tratando esse novo — e até então inexplorado — canto do MCU com o devido cuidado.

A direção de arte retrofuturista recria Nova York mesclando elementos do passado e do futuro, gerando uma estética que se encaixa com o espírito da franquia. Os efeitos visuais variam em qualidade: o visual do Coisa e de Galactus impressiona pela autenticidade, enquanto o bebê em CGI e as chamas que envolvem Joseph Quinn deixam a desejar, soando artificiais em certos momentos.
Pedro Pascal, Vanessa Kirby, Joseph Quinn e Ebon Moss-Bachrach lideram o elenco com carisma, ainda que com algumas imperfeições. Kirby e Quinn se destacam, trazendo camadas emocionais aos seus icônicos personagens. Julia Garner, que interpreta uma nova versão da Surfista Prateada, entrega uma performance contida e comovente — apesar de ser inteiramente em CGI, ela contribui de forma significativa para o coração do filme. Ralph Ineson também chama a atenção como Galactus: embora falte carisma ou emoção comparáveis ao Thanos de Josh Brolin, sua presença em cena evoca um terror quase lovecraftiano.

Embora pudesse ser mais “Fantástico”, o 37º filme do MCU é uma excelente reintrodução à família Richards, pavimentando o caminho para uma nova fase dos personagens da Marvel. Com os já anunciados Doomsday e Secret Wars, que prometem o retorno de dezenas de personagens, o Quarteto Fantástico torna-se peça essencial nesse xadrez complexo que o UCM se tornou. Que essa onda de boa fé se mantenha — afinal, esses personagens são, no mínimo, fantásticos.

