Um filme aparentemente convencional, ‘O Diabo Veste Prada’ conseguiu abordar diferentes temas que marcaram a geração que cresceu nos anos 2000: o fascínio pela moda, a ansiedade diante do futuro profissional e o tratamento abusivo em ambientes de trabalho. Baseado no livro de Lauren Weisberger-com um passado ligado a Anna Wintour– o longa estrelado por Anne Hathaway, Emily Blunt e Meryl Streep tornou-se uma sensação cultural em várias frentes, e sua aguardada continuação está prevista para 2026.
Embora dispense apresentações, o filme narra a trajetória de Andy Sachs, uma aspirante a jornalista que acaba empregada como assistente pessoal de Miranda Priestly, editora-chefe de uma das revistas de moda mais influentes do mundo. Priestly, uma mulher exigente e implacável, leva Andy — e todos ao seu redor — aos limites emocionais e psicológicos. Trabalhando sob a frieza cortante de Miranda, Andy passa a se adaptar ao mercado de trabalho e ao mundo da moda… mas todo sucesso tem seu preço.
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Lançado em 2006, o filme é, ao mesmo tempo, datado e atemporal: elementos como a busca desesperada por um manuscrito inédito de Harry Potter situam a narrativa nos anos 2000, enquanto os temas discutidos permanecem relevantes em 2025. A moda, no longa, é tratada como sistema de poder e linguagem. O vestuário comunica pertencimento, status, obediência e transformação. Andy inicia o filme com roupas largas e “funcionais”, incompatíveis com o universo em que se insere. À medida que se adapta à lógica ilógica do ambiente, passa a usar peças sofisticadas — sim, inclusive as botas Chanel.
Em um dos diálogos mais emblemáticos da obra, Miranda desconstrói o discurso pretensamente neutro de Andy sobre moda. Ao comentar sobre um “suéter azul comum” usado pela personagem, a editora o insere numa cadeia de decisões estéticas, econômicas e industriais, demonstrando que tudo o que vestimos — por mais casual que pareça — carrega significados. A cena, hoje icônica, sintetiza como ‘O Diabo Veste Prada’ desafia o espectador a não subestimar a inteligência ou o impacto do mundo da moda, tantas vezes tratado com desdém.
A força do filme reside, em grande parte, na complexidade de suas personagens femininas. Miranda Priestly não é uma vilã unidimensional, ainda que tenha sido inspirada em figuras como a Cruella De Vil de Glenn Close. O roteiro, adaptado por Aline Brosh McKenna, evita reduzi-la a uma caricatura cruel. Em vez disso, revela uma mulher que ascendeu em um ambiente dominado por homens e que, por isso, cobra excelência absoluta — uma exigência apresentada como o preço da autoridade feminina no topo. As comparações com Anna Wintour, então editora-chefe da ‘Vogue’, vão além do sutil — Wintour, inclusive, compareceu à estreia do filme vestindo Prada.
Anne Hathaway interpreta com desenvoltura a jovem idealista que se vê seduzida por um universo aparentemente glamouroso, mas emocionalmente desgastante. A transformação de Andy vai além do figurino — embora o guarda-roupa, assinado por Patricia Field, seja essencial —, configurando-se como uma jornada de autoconhecimento e amadurecimento. Emily Blunt, por sua vez, foi catapultada ao estrelato internacional com sua interpretação da cínica Emily, uma funcionária devotada ao trabalho que, embora nem sempre tome boas decisões ou seja simpática, é mais uma vítima do sistema rígido comandado por Miranda.

O filme dialoga, ainda que de forma indireta, com debates feministas ao retratar mulheres em posições de poder e as dificuldades que enfrentam para exercer autoridade sem serem rotuladas. Miranda é, nesse sentido, uma das figuras mais discutidas da cultura pop: odiada por uns, reverenciada por outros, mas impossível de ignorar. Representa o arquétipo da mulher que precisou abrir mão da doçura para sobreviver em um ambiente impiedoso — uma leitura que ainda suscita debates sobre os limites entre empatia e exigência no topo das hierarquias profissionais.
Com roteiro afiado, direção funcional e um elenco carismático, ‘O Diabo Veste Prada’ segue relevante quase duas décadas após seu lançamento. Tornou-se referência não apenas no cinema de moda, mas também em discussões sobre trabalho, identidade e poder feminino. É um filme que, sob o brilho das passarelas e dos saltos altos, oferece um espelho — nem sempre lisonjeiro — da sociedade contemporânea.

