Após a bem-sucedida parceria na divulgação de ‘Ainda Estou Aqui‘, a Sony Pictures retorna ao cinema brasileiro com ‘Vitória’, estrelado pela Primeira-Dama do Teatro Nacional, Fernanda Montenegro. Baseado na história real de Joana Zeferino da Paz, o filme é dirigido por Andrucha Waddington — genro de Montenegro — e marca a despedida da atriz das telonas, decisão motivada por sua idade avançada. Ainda assim, a primeira latina indicada ao Oscar comprova que seu talento permanece vibrante.
No longa, Fernanda interpreta Dona Nina, uma massagista idosa que vive cercada pela violência do tráfico. Incomodada com o aumento da criminalidade e a ineficácia da polícia, ela compra uma filmadora e começa a registrar os crimes e abusos cometidos ao redor de sua casa. Suas ações chamam a atenção do jornalista policial Flávio Godoy, que se compromete a ajudá-la a expor o tráfico e a corrupção instaurada na vizinhança.

Lançado logo após o fenômeno ‘Ainda Estou Aqui’, ‘Vitória’ não se trata de um drama político, mas sim de um drama social. A trama revela como os elementos cotidianos da vida de Dona Nina se entrelaçam com as altas taxas de violência, seja no assassinato de uma conhecida ou na corrupção moral de alguém em quem ela confia. Em sua simplicidade e obstinação por justiça, Nina emerge como uma protagonista poderosa em um filme intimista, focado em poucos personagens.
A direção de Andrucha Waddington — que assumiu o projeto após a morte de Breno Silveira — remete a uma peça de teatro. Embora a narrativa transite por diferentes ambientes, é o apartamento escuro e claustrofóbico de Nina que domina a mise-en-scène. As cenas externas, embora menos frequentes, ora intensificam a tensão, ora oferecem momentos de respiro e leveza à personagem principal.

Com mais de noventa anos, Fernanda Montenegro entrega uma performance memorável como Dona Nina. A fragilidade dos movimentos e a rouquidão da voz contrastam com o olhar firme e imponente, revelando a potência cênica da atriz. O elenco coadjuvante, com nomes como Alan Rocha e Linn da Quebrada complementa a narrativa com atuações sólidas e sensíveis.
‘Vitória’ é mais que um retrato de resistência: é uma ode à coragem cotidiana de mulheres anônimas que, mesmo diante do abandono do Estado, recusam-se a calar. A despedida de Fernanda Montenegro das telas ganha, assim, um peso simbólico e emocional, consagrando seu legado artístico com a dignidade e a força de quem sempre fez do palco — ou da tela — um território de verdade

