Sherlock Holmes é considerado um dos maiores detetives da ficção. A criação de Arthur Conan Doyle ocupa um lugar especial no panteão da cultura pop mundial, sendo facilmente reconhecida, seja por sua silhueta icônica, seu método de dedução surpreendente ou suas frases de efeito cínicas o suficiente para impressionar qualquer espectador. Diferentes versões do detetive inglês foram criadas ou parodiadas ao longo dos anos, uma delas sendo “Basil da Rua Baker” — um camundongo que vive sob a casa de Holmes e passa seus dias solucionando mistérios no fim da Era Vitoriana. Essa adaptação ganhou vida na animação da Disney O Grande Ratinho Detetive, que viria a pavimentar o caminho para o que hoje conhecemos como a Renascença Disney.
Basil vê a chance de finalmente capturar seu arqui-inimigo, o pérfido Professor Ratagão, quando uma jovem ratinha aparece em sua porta, aflita com o desaparecimento de seu pai, um inventor. Com sua trupe de malfeitores, Ratagão planeja tomar o trono do Reino dos Ratos (não se questione, apenas aceite) durante o jubileu de diamante da Rainha. Cabe a Basil e seu leal companheiro, o sábio Dr. Dawson, impedir que esse plano se concretize.

Em uma época em que todos os projetos dos Estúdios Disney enfrentavam o escrutínio da crítica e da bilheteria, a recepção morna de O Grande Ratinho Detetive foi encarada como mais uma tentativa desesperada de revitalizar o legado de Holmes no cinema oitentista. Embora tenha sido razoavelmente popular em seu lançamento, a animação conquistou o status de clássico cult com o passar das décadas, destacando-se como uma rara aventura de mistério e suspense em um gênero normalmente associado a figuras fofas de olhos grandes.
Assim como outros clássicos infantojuvenis da década de 1980, o longa não teme impressionar o público com imagens sombrias e perturbadoras, envolvendo morte, sequestros e até tons adultos. Sem nenhuma cena ambientada durante o dia, as noites vitorianas ajudam a compor uma atmosfera claustrofóbica e secreta, diferenciando o filme de outras produções da mesma era no estúdio.
Basil é um protagonista fora do comum: cheio de si, arrogante e sabichão, ele foge do arquétipo do herói em busca de autoconhecimento. Basil já acredita ser o melhor — e essa certeza move sua jornada ao longo do filme. No entanto, o grande destaque da obra é o vilão. Ratagão é um dos antagonistas mais memoráveis do estúdio, funcionando como o perfeito contraponto de Basil. Deliciosamente maléfico e dublado pelo ícone do terror Vincent Price, Ratagão representa uma das interpretações mais marcantes da figura de Moriarty no cinema.
O Grande Ratinho Detetive permanece como uma joia singular dentro da filmografia da Disney: ousado, atmosférico e sofisticado, ainda que subestimado por muitos. o Primeiro trabalho da dupla Musker e Clements, diretores responsáveis por diversos dos clássicos associados a Disney, sua releitura animada de Sherlock Holmes, repleta de charme vitoriano, humor sarcástico e riscos narrativos, prova que mesmo um rato pode carregar a elegância — e a complexidade — de um grande detetive. Décadas depois, Basil continua a solucionar mistérios no coração de um público que redescobre sua genialidade com olhos mais atentos e maduros.

