Hollywood é uma máquina de criar e destruir estrelas desde seu surgimento, no início do século XX. Em sua presunção muitas vezes hipócrita, filmes que exploram os bastidores da indústria e de suas figuras mais emblemáticas costumam se tornar favoritos na temporada de premiações, mascarando as contradições do sistema sob o brilho de estatuetas douradas. ‘Jay Kelly’, no entanto, adota uma abordagem distinta ao se afastar do espetáculo dos bastidores e focar em uma história íntima, expondo as falhas humanas que alimentam essa engrenagem e as consequências pessoais que delas derivam.

Jay Kelly é um ator na casa dos cinquenta anos que aparentemente tem tudo. Após a morte do diretor responsável por lançar sua carreira e um conflito com um antigo amigo, Kelly, seu agente Ron e o restante da equipe viajam para a Itália para participar de um tributo. Paralelamente, o ator tenta se reaproximar da filha mais nova, Daisy. Em meio à nostalgia e à aclamação constante por onde passa, Kelly começa a refletir sobre seu papel como ator — e, sobretudo, sobre o quanto falhou como pai.

O filme é dinâmico e ácido ao retratar os altos e baixos da vida de um ator galanteador, com aura de canalha charmoso. ‘Jay Kelly’ não se interessa em mostrar como um filme é feito, mas nas pequenas e grandes trapaças que indivíduos cometem para alcançar ou manter o sucesso. O longa também não suaviza a toxicidade de se trabalhar com uma grande estrela, expondo como assessores e colaboradores precisam equilibrar, de forma muitas vezes desgastante, suas vidas profissionais e pessoais. O roteiro de Noah Baumbach e Emily Mortimer — que também integra o elenco como parte da equipe de Kelly — é repleto de referências ao universo cinematográfico, com diálogos rápidos, piadas afiadas e cenas que começam e terminam de maneira abrupta. O filme abraça absurdos que apenas uma estrela de Hollywood pode proporcionar.

Um dos temas centrais da narrativa é a forma como certas superestrelas priorizam fama e influência, relegando suas relações pessoais a segundo plano. Kelly é um ator consagrado, mas mantém uma relação fria e distante com as duas filhas. Em contraste, os demais personagens tendem a ser pais mais presentes, ainda que acabem, muitas vezes, sacrificando aspectos de suas próprias vidas para atender às demandas da estrela, tomando decisões difíceis ao longo do caminho.

O filme se beneficia do ambiente contemporâneo de Los Angeles e das vilas italianas. Em cenários frequentemente escuros, com poucos focos de luz, a fotografia assume um peso narrativo significativo, sugerindo de forma sutil acontecimentos do passado de Kelly. A direção de Noah Baumbach é segura tanto na comédia quanto no drama, conduzindo uma história coesa sobre um homem que amadurece em um espaço de tempo limitado, enquanto é forçado a confrontar verdades incômodas.

Jay Kelly é interpretado por George Clooney em um de seus melhores trabalhos. O ator parece, ao mesmo tempo, abraçar e questionar a percepção pública construída ao longo de sua carreira, entregando uma performance contida, mas emocionalmente rica, que o afasta do arquétipo do galã. Adam Sandler surpreende como o agente Ron, em um papel predominantemente sério, mas pontuado por trejeitos cômicos que o tornam um forte candidato ao reconhecimento como coadjuvante em 2026. O elenco de apoio conta ainda com Laura Dern, Emily Mortimer, Greta Gerwig, Jim Broadbent, Riley Keough e Billy Crudup. Todos cumprem bem seus papéis, mas o verdadeiro cerne do filme reside na dinâmica entre os personagens de Clooney e Sandler.

‘Jay Kelly se revela menos um retrato sobre Hollywood e mais um estudo sensível sobre envelhecimento, ego e responsabilidade emocional. Ao despir o glamour da indústria e concentrar-se nas fissuras internas de seu protagonista, o filme propõe uma reflexão amarga sobre o custo da fama e o preço das escolhas adiadas. Noah Baumbach entrega uma obra madura, que encontra força justamente na contenção, transformando um astro em ruínas internas em um espelho desconfortável — não apenas para Hollywood, mas para qualquer um que tenha confundido sucesso com plenitude.