As aventuras de Onze, Mike e dos demais habitantes de Hawkins chegam ao fim. Após dez anos e cinco temporadas, o primeiro grande fenômeno da Netflix se despede. Stranger Things quebrou recordes, moldou a cultura pop da década e superou expectativas ao longo de seu desenvolvimento, mas muita coisa mudou desde o início dessa saga. E é justamente esse intervalo de tempo — entre a estreia arrebatadora e a despedida tardia — que torna sua conclusão tão ambígua.

Meses depois de o maléfico Henry Creel, conhecido como Vecna, dividir a cidade de Hawkins, Onze e sua turma precisam encontrar uma forma de impedir o retorno definitivo do monstro. Reunidos pela última vez, Onze, Mike e os demais se preparam para a batalha final, desvendando os mistérios do Mundo Invertido. Respostas são finalmente entregues e segredos guardados desde as primeiras temporadas vêm à tona.

Após uma quarta temporada bem recebida e marcada por reviravoltas eficazes, Stranger Things encerra sua trajetória com uma temporada final surpreendentemente contida no quesito tensão. Grande parte das revelações serve para amarrar pontas soltas do passado — como as origens do Mundo Invertido e a sobrevivência de Max e Will —, mas a execução dessas respostas carece de impacto. Como já apontado, Stranger Things é uma série que perdeu seu timing, chegando à linha de chegada quando seu fôlego criativo já demonstrava sinais claros de desgaste.

O excesso de personagens torna-se um peso difícil de sustentar. Mesmo coadjuvantes das primeiras temporadas ganhando destaque tardio, a narrativa se fragmenta. Com episódios que ultrapassam facilmente uma hora de duração, a temporada se divide em três arcos paralelos, cada um tentando sustentar um alicerce emocional que já não prende como antes. Personagens recorrentes desde a terceira temporada mantêm certo charme, mas a inclusão da namorada de Robin e do professor de física dos garotos deixa o elenco ainda mais inchado. Entre o grupo clássico, o protagonismo retorna a Will Byers — algo que não ocorria desde a segunda temporada — e a atuação de Noah Schnapp surpreende pela carga emocional, enquanto personagens como Lucas e Dustin acabam relegados a arcos regressivos, com pouco desenvolvimento real.

Responsável por lançar diversos atores adolescentes ao estrelato, Stranger Things encerra sua trajetória destacando, sobretudo, os talentos de Sadie Sink, Noah Schnapp e Jamie Campbell Bower — com e sem suas próteses. Fora esses destaques, parte do elenco parece cansada, presa a personagens que já não evoluem, envoltos por uma fotografia segura, porém pouco inspirada, e efeitos visuais tecnicamente competentes. A inclusão da veterana Linda Hamilton como vilã secundária surge como uma aquisição tardia, que pouco acrescenta à narrativa. Em muitos aspectos, essa temporada final remete à conclusão de Game of Thrones: uma das séries mais amadas de sua época entrega um encerramento aquém de seu potencial.

Stranger Things pode até apostar em um final grandioso e emocionalmente calculado, mas o caminho trilhado até aqui não justifica plenamente seus desfechos. O saudosismo da década de 1980, antes um trunfo criativo, é explorado à exaustão, tornando-se quase um peso narrativo. No fim, a série se despede como um marco cultural inegável, mas também como um exemplo de como o sucesso prolongado pode diluir o impacto de uma história que, talvez, devesse ter terminado antes — quando o mistério ainda era maior do que as respostas.

Categorized in: