Em momentos de descontração, já comentei mais de uma vez uma anedota: Stranger Things, talvez uma das séries que cimentou o sucesso mundial da Netflix, teve seu início nos últimos momentos do governo Dilma Rousseff. Esse comentário pouco se liga à política; ele ressalta, sobretudo, como a série nasceu em um mundo completamente distinto daquele em que agora se encerra. Com o fim iminente da produção que paralisou o planeta, torna-se essencial revisitar seus altos e baixos para compreender o que ela se tornou: apenas mais uma opção em um catálogo aquém do potencial que um dia a consagrou.

Stranger Things conta a história de um grupo de crianças e das experiências nada convencionais que acontecem na fictícia cidade de Hawkins, Indiana. O desaparecimento do jovem Will Byers e o surgimento da misteriosa menina conhecida como Onze catapultam uma trama carregada de suspense, nostalgia oitentista e referências diretas a Spielberg, Carpenter e Stephen King. Após esse ápice inicial, porém, o caminho da série começou a se desdobrar sob o peso do próprio êxito. A segunda temporada já evidenciava sinais de dilatação estrutural: vícios de fan service, repetição de arquétipos previamente explorados e a sensação de que a narrativa se expandia sem verdadeira evolução interna. Hawkins permanecia como centro, mas o Mundo Invertido — outrora um abismo inominável — passava a sofrer uma metamorfose. Os mistérios demoravam a se resolver, e, para muitos espectadores, isso indicava um universo pobremente construído.

A terceira temporada representa o ponto de inflexão definitivo: o universo de Stranger Things abraça a estética do espetáculo. O shopping Starcourt Mall, repleto de neon e promessa de consumo, sintetiza a ambição do projeto: a série deixa de se sustentar em atmosferas soturnas e passa a privilegiar dispositivos artificiais que exaltam a cultura pop como um fim em si mesma. Stranger Things se transforma de um horror de pequenas escalas em um blockbuster seriado, comprometendo o lirismo da descoberta e a delicadeza dos silêncios que definiram seus inícios. A temporada também recebeu críticas pela representação caricata dos soviéticos — personagens unidimensionais, interessados em dominar o mundo —, evocando retóricas da Guerra Fria que, embora coerentes com o imaginário dos anos 1980, soaram datadas. Some-se a isso a construção pobre de vários personagens, de bullies sem redenção a comunistas sedentos pelo sangue da liberdade americana.

A quarta temporada tentou recuperar a densidade perdida ao apresentar o antagonista mais articulado da franquia: Vecna, afastando-se de predadores puramente sobrenaturais como o Devorador de Mentes e o Demogorgon. O vilão simboliza um retorno ao horror psicológico e à ideia de que o mal possui história e intenção. No entanto, o resgate ocorre tardiamente. O público já conhece os mecanismos narrativos demais para se surpreender, e muitos abandonaram a série. A trama se divide em núcleos geográficos — Hawkins, Califórnia, Rússia — numa fragmentação que visa à escala épica, mas resulta em meia dúzia de cenas realmente memoráveis. Ao ampliar seu escopo, a série confunde grandeza com significação. Há momentos notáveis, como a icônica sequência de Max ao som de Kate Bush, que reintroduz o medo como experiência íntima, mas gestos isolados não reparam o cansaço estrutural. Em última instância, Stranger Things passa a viver de seus próprios ícones, tornando-se refém da nostalgia que um dia manipulou com maestria.

A nostalgia oitentista sustentou a série por muito tempo, inspirando produtos contemporâneos e despertando um fascínio midiático que revisitou a relativa estabilidade socioeconômica dos Estados Unidos no período. Filmes como E.T. e Os Goonies tornaram-se chaves de leitura para o público, que associava a produção da Netflix a um imaginário já consagrado. Contudo, quanto mais a série se aproximava dos anos 1990, menos referências havia para exploração narrativa — fossem elas cinematográficas, culturais ou geopolíticas. Vale lembrar que esse período marca o final da Guerra Fria e a dissolução da União Soviética. Em 2025, a nostalgia pelos anos 1980 já foi explorada ao máximo, e o approach dos irmãos Duffer não foi o mais criativo: embora explorassem intensamente o apelo visual — dos cortes de cabelo às ombreiras, passando pelo domínio de madonna-a-rainha-do-pop/”>Madonna na música — algumas inserções pareciam soltas. Um exemplo notável surge na quarta temporada, quando o pânico satânico ligado aos jogos de RPG retorna como arco antagônico.

A longa duração do projeto — dez anos para desenvolver cinco temporadas, ainda que a pandemia de Covid-19 tenha impactado o cronograma — simboliza uma falta palpável de planejamento. Respostas prometidas desde o lançamento permanecem obscuras em favor da preservação da “boa fé” construída com o público. O elenco, agora formado por jovens adultos com carreiras e vidas próprias, encara a temporada final (ainda incompleta) com o mesmo desconforto que Emilia Clarke e Kit Harington demonstraram ao falar sobre o encerramento de Game of Thrones.

A queda de Stranger Things não é um colapso abrupto; é um esvaziamento gradual e uma perda de momentum. Como muitas franquias contemporâneas, a série sucumbe ao próprio sucesso: quanto mais cresce, menos consegue sustentar o mistério inicial que a legitimou. A Netflix, presa à lógica de prolongar produtos rentáveis, impõe ao enredo uma longevidade que dilui seu impacto. Os personagens envelhecem, o público amadurece, mas a narrativa insiste em repetir mecanismos já decifrados — e mantém saltos temporais mínimos para espremer os últimos respingos de nostalgia oitentista. O Mundo Invertido, antes metáfora do desconhecido que assombra a infância, converte-se em dispositivo funcional; os monstros tornam-se quebra-cabeças resolvidos por pura técnica. A magia inaugural — aquela mistura de terror e ternura, de sombra e aventura — perde-se no excesso. Stranger Things permanece relevante como marco cultural da década de 2010, mas seu brilho já não é um farol: é apenas um reflexo distante, observado no retrovisor da própria nostalgia que a consagrou. Mesmo que a última temporada conclua essa história com recordes em audiência, é perceptivel de que muito mudou desde o início, e nem tudo para o melhor

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