Entre as obras mais emblemáticas da teledramaturgia brasileira, Roque Santeiro ocupa um lugar de destaque inquestionável. Escrita por Dias Gomes e adaptada por Aguinaldo Silva, a novela não foi apenas um fenômeno de audiência — tornou-se um retrato satírico e poético de um país mergulhado em contradições morais, religiosas e políticas. A narrativa mistura humor, drama, crítica social e religiosidade popular, construindo uma alegoria profunda sobre a necessidade de mitos e a manipulação das crenças coletivas.

A gênese de Roque Santeiro remonta ao início dos anos 1970, período em que o Brasil vivia sob o regime militar. Dias Gomes, já consagrado por obras como O Bem-Amado e O Pagador de Promessas, escreveu uma história inspirada em sua própria peça O Berço do Herói. O texto, censurado antes mesmo da estreia em 1965, foi considerado subversivo por questionar valores religiosos e patrióticos. Em 1975, a Rede Globo decidiu adaptá-lo para a televisão, reunindo um elenco de peso, com Francisco Cuoco no papel de Roque e Betty Faria como Viúva Porcina.

Entretanto, com os capítulos prontos para ir ao ar, a ditadura interveio: Roque Santeiro foi censurada um dia antes da estreia. A justificativa oficial alegava que a obra ofendia a religião e as Forças Armadas. Essa censura transformou a novela em um mito perdido da televisão brasileira. Durante mais de uma década, o público especulou sobre o conteúdo “proibido” da história. O elenco tentou, inclusive, se reunir com o presidente Ernesto Geisel para negociar a liberação, mas não foi recebido.

Somente em 1985, com o fim do regime militar e o início da Nova República, Roque Santeiro finalmente ganhou vida nas telas. Reescrita por Dias Gomes e Aguinaldo Silva, a versão definitiva estreou em um momento de esperança e transição política — e rapidamente se tornou um marco cultural.

A história se passa na fictícia cidade de Asa Branca, onde o povo acredita na santidade de Roque, um homem que teria morrido defendendo os habitantes contra um bando de cangaceiros liderados por Navalhada. Desde então, Roque foi transformado em mito — o “santo milagreiro” que protege a cidade. Em torno dessa crença ergueu-se toda uma economia e uma estrutura de poder: o turismo religioso, a devoção popular e a manipulação dos líderes locais garantem prosperidade a alguns e alienação a muitos. O conflito central surge quando Roque retorna vivo, revelando que sua morte fora uma farsa. Seu retorno ameaça desmoronar toda a ordem social e econômica de Asa Branca. Essa tensão entre o real e o simbólico, o humano e o sagrado, move toda a trama.

Ao seu redor orbitam personagens de notável complexidade e ironia: Sinhozinho Malta, o poderoso fazendeiro e “coronel” local — embora deteste ser chamado assim —, domina Asa Branca com mão de ferro e vive um amor tempestuoso com Viúva Porcina (Regina Duarte), uma mulher exuberante, sensual e teatral.

Roque Santeiro é, sobretudo, uma fábula política. Asa Branca serve como um microcosmo do Brasil: um país que precisa de heróis para justificar seus fracassos e de santos para encobrir sua corrupção. A crítica à manipulação da fé e à exploração das crenças populares é constante. A Igreja local lucra com o mito do “santo milagreiro”, o comércio prospera com o turismo religioso e os políticos mantêm seu domínio sobre o povo crédulo.

Essa dimensão alegórica aproxima a novela das tradições literárias brasileiras do realismo mágico e da comédia de costumes. A linguagem de Dias Gomes equilibra gêneros com maestria: o grotesco e o cômico, o trágico e o farsesco. Os estereótipos da época divertem não apenas pelo exagero, mas também pelo que representam — beatas militantes, o “lobisomem” erudito, o homem obcecado por medalhas religiosas que encontra nelas o prenúncio do próprio fim.

A novela também critica o coronelismo e a cultura do “jeitinho”, tão enraizada na sociedade brasileira. Sinhozinho Malta é o retrato do poder autoritário disfarçado de paternalismo — um homem que dita as regras, manipula as pessoas e se vê acima da lei, mas que também é profundamente humano em suas paixões e contradições. Sua célebre frase — “Tô certo ou tô errado?” — tornou-se bordão nacional, simbolizando a confusão moral do país. A própria transição do poder, com a saída de um militar e a ascensão de José Sarney, representante das oligarquias tradicionais, evidencia a persistência do coronelismo e suas contradições.

O sucesso de Roque Santeiro deve-se, em grande parte, à força de seus personagens e à qualidade de seu elenco. José Wilker interpretou Roque com carisma e sutileza — um herói relutante, dividido entre a verdade e o mito. Regina Duarte, em um de seus papéis mais marcantes, construiu uma Viúva Porcina exuberante, caricata e trágica. Lima Duarte transformou Sinhozinho Malta em uma das figuras mais icônicas da história da televisão brasileira.

O elenco secundário também foi memorável: o padre Hipólito (Paulo Gracindo), o beato Salu (Nelson Dantas), o prefeito Florindo Abelha (Ary Fontoura), Zé das Medalhas (Armando Bógus), Matilde (Yoná Magalhães) e tantos outros. Cada um deles encarna um tipo social — do religioso fanático ao político corrupto, do comerciante oportunista ao crente ingênuo — compondo um mosaico riquíssimo do Brasil profundo.

Exibida entre junho de 1985 e fevereiro de 1986, Roque Santeiro atingiu índices de audiência superiores a 80 pontos e tornou-se um fenômeno cultural. Gerou bordões, modas, debates e uma trilha sonora inesquecível — com destaque para Dona, do Roupa Nova. Humor popular e crítica social coexistiam de forma harmoniosa, permitindo que o público risse de si mesmo enquanto refletia sobre sua realidade. A novela elevou a teledramaturgia à condição de arte e espelho nacional.

A essência de Roque Santeiro está na desconstrução do mito. Roque não é santo nem herói: é apenas um homem comum que se tornou lenda por conveniência dos outros. Ao retornar, tenta restaurar a verdade, mas descobre que ninguém quer ser libertado da mentira. Asa Branca prefere o mito ao homem, a ilusão à realidade. Nesse sentido, a novela dialoga com temas universais — a manipulação da fé, a fabricação de ídolos e a necessidade humana de acreditar em algo, mesmo que seja falso.

Roque Santeiro não é apenas uma novela, mas um marco da cultura nacional: uma alegoria sobre o Brasil e sua eterna oscilação entre fé e farsa, esperança e desencanto. Ao unir crítica política, humor popular e personagens inesquecíveis, Dias Gomes criou uma obra que permanece atual, mesmo décadas depois.

Em um país que ainda fabrica seus mitos e venera seus “santos” de ocasião, a história de Asa Branca continua ecoando como advertência e poesia: o santo é o povo, e o milagre é resistir.

Tô certo ou tô errado?

Categorized in: