Com a pandemia de COVID-19 impossibilitando o funcionamento normal dos cinemas, as corporações do entretenimento precisaram se sustentar em seus respectivos serviços de streaming para manter seus cronogramas e apresentar novas produções a uma audiência ávida. Nesse contexto, a Disney-Pixar decidiu lançar alguns de seus filmes originais diretamente em sua plataforma, transformando essas estreias em eventos familiares domésticos. Foi também nesse período que o estúdio começou a se afastar de um hiper-realismo que havia se tornado sua marca, apostando em novas direções criativas e em cineastas que, até então, haviam produzido apenas curtas-metragens ou estavam se aventurando pela primeira vez em longas. Um desses casos é ‘Luca’, dirigido por Enrico Casarosa, que apresenta uma história original que, apesar de certa previsibilidade, mantém um charme e carisma particulares.

Luca Paguro é um monstro marinho que vive preso a uma rotina monótona no fundo do mar. Sua vida muda completamente quando ele conhece Alberto, um jovem aventureiro que o apresenta a um mundo de possibilidades. Ao descobrir que ambos assumem forma humana quando estão fora d’água, os dois passam a aproveitar o verão juntos, vivendo pequenas travessuras e evitando o contato com humanos, que temem e caçam criaturas marinhas. Quando os pais superprotetores de Luca ameaçam enviá-lo para as profundezas abissais, ele e Alberto decidem fugir para Portorosso, uma vila à beira-mar marcada por uma longa tradição de caça a monstros marinhos. Lá, Luca conhece Giulia, uma garota deslocada que os incentiva a participar de uma competição local. É nesse cenário que as relações entre os personagens são colocadas à prova.

Baseado nas memórias da juventude de Casarosa, o filme não busca se tornar uma montanha-russa emocional, como alguns de seus antecessores, mas sim explorar uma narrativa mais contida, apoiada em um estilo de animação menos preocupado com o hiper-realismo. O resultado é um roteiro previsível, porém reconfortante. Luca traça paralelos evidentes com A Pequena Sereia e demonstra forte influência dos trabalhos de Hayao Miyazaki. Ainda assim, mantém o alto padrão da Pixar Animation Studios, com escolhas estéticas que dialogam diretamente com sua proposta narrativa. A animação privilegia formas suaves e expressivas, com personagens levemente caricaturais, contribuindo para um tom mais leve e acessível. Em contrapartida, os cenários são ricos em detalhes, evocando uma atmosfera nostálgica que dialoga com a cultura italiana. A trilha sonora, inspirada em composições clássicas de Ennio Morricone, destaca-se como um dos grandes trunfos da produção.

A relação entre Luca e Alberto constitui o núcleo emocional do filme. Alberto, mais impulsivo e aparentemente destemido, atua como catalisador para as experiências de Luca, ao mesmo tempo em que revela suas próprias fragilidades. A dinâmica entre os dois é marcada por cumplicidade, mas também por tensões sutis, especialmente com a entrada de Giulia, que amplia os horizontes de Luca. Esse triângulo não se desenvolve como uma rivalidade convencional, mas como um processo de amadurecimento e diferenciação. Luca passa a compreender que seu mundo pode ir além da bolha que compartilha com Alberto. A leitura do filme como uma alegoria à descoberta queer tornou-se uma das interpretações mais populares, reforçada tanto por membros da produção quanto por parte do público.

O ritmo mais contemplativo pode não agradar a quem espera uma narrativa mais dinâmica ou emocionalmente explosiva, característica de outras produções do estúdio, como Divertida Mente ou Up. Ainda assim, essa escolha parece deliberada. Luca não pretende ser um épico emocional, mas um retrato sensível de um momento específico da vida: aquele em que o mundo começa a se expandir — e, com ele, as possibilidades de quem somos. Mesmo sem lançamento nos cinemas, o filme conquistou grande popularidade no streaming e foi indicado ao Oscar de Melhor Animação. O reconhecimento da crítica também consolidou Enrico Casarosa como um nome promissor dentro do estúdio, levando-o a dirigir novos projetos, como Gatto, previsto para 2027.

Em última análise, Luca se destaca não por reinventar a linguagem da animação, mas por sua delicadeza. É um filme que encontra força na simplicidade, na construção de afetos e na evocação de memórias. Ao abdicar de grandes reviravoltas e apostar em uma narrativa mais íntima, a obra se aproxima do espectador de maneira silenciosa, quase sussurrada. Sua beleza reside justamente nesse gesto contido: um verão breve, uma amizade transformadora e a descoberta de um mundo maior — tanto fora quanto dentro de si.

Categorized in: