Lançado em 2018 e dirigido por Adam McKay, Vice é uma das produções políticas mais provocativas do cinema norte-americano recente. O filme acompanha a trajetória de Dick Cheney, interpretado por Christian Bale, desde sua juventude aparentemente despretensiosa até sua transformação em uma das figuras mais poderosas — e controversas — da história política dos Estados Unidos. Após a morte de Cheney em 2025 e o 25º Aniversário dos atentados de 11 de Setembro– um dos momentos mais infames de sua vice presidencia, revisitamos como Vice procura investigar os bastidores do poder e mostrar como decisões tomadas longe dos olhos do público podem transformar profundamente o destino de um país e, consequentemente, do mundo.
O grande tema de Vice, entretanto, é a maneira como o poder político pode ser ampliado e reinterpretado. O filme mostra a ascensão de Cheney dentro do Partido Republicano, seu trabalho ao lado de figuras importantes da política americana e, principalmente, sua atuação como vice-presidente durante o governo de George W. Bush. Interpretado por Sam Rockwell, Bush surge como um político menos experiente e mais facilmente influenciável, permitindo que Cheney exerça uma influência extraordinária dentro da Casa Branca.
É nesse momento que o filme se torna especialmente importante para compreender o cenário político posterior aos atentados de 11 de setembro de 2001. Vice apresenta os ataques como um ponto de transformação para os Estados Unidos e para a administração Bush. O medo, a insegurança e o desejo de vingança criaram um ambiente favorável para a expansão dos poderes do governo. Cheney percebeu rapidamente as possibilidades abertas por aquela crise e passou a defender medidas que modificariam profundamente a política externa e a estrutura de segurança norte-americana. O filme aborda a invasão do Iraque, a criação de justificativas relacionadas às supostas armas de destruição em massa e a expansão das políticas de vigilância e interrogatório. McKay não tenta esconder sua posição crítica: Vice apresenta essas decisões como consequências de uma política construída através do medo e da manipulação. O filme sugere que Cheney e seus aliados utilizaram o trauma nacional para justificar ações que, em outras circunstâncias, encontrariam maior resistência dentro da sociedade americana.
Uma das discussões mais interessantes apresentadas pela obra está relacionada à chamada “teoria do executivo unitário”, uma interpretação jurídica que defende poderes extremamente amplos para o presidente dos Estados Unidos. Em Vice, essa ideia se torna uma das ferramentas utilizadas para ampliar a autoridade do governo durante a Guerra ao Terror. O filme demonstra como conceitos jurídicos aparentemente técnicos podem ter consequências gigantescas quando aplicados à realidade política. Assim, decisões tomadas em escritórios e reuniões privadas acabam afetando milhões de pessoas em diferentes partes do planeta.
Adam McKay utiliza uma linguagem cinematográfica pouco convencional para contar essa história. A narrativa não segue simplesmente uma ordem cronológica tradicional. O diretor interrompe acontecimentos, insere comentários e utiliza recursos humorísticos que podem surpreender o espectador, ou toma-lo como estúpido. O humor de Vice é, muitas vezes, desconfortável. O espectador pode rir de uma situação e, poucos segundos depois, perceber as consequências trágicas por trás dela. Essa combinação é uma das maiores qualidades do filme.
Visualmente, o longa também se destaca pelo trabalho de caracterização e maquiagem. Christian Bale se transforma de maneira impressionante ao longo dos anos, acompanhando o envelhecimento de Cheney e sua transformação física. A direção consegue criar uma atmosfera que alterna entre os corredores silenciosos do poder e momentos de grande impacto histórico. A trilha sonora e a montagem ajudam a manter o ritmo acelerado, mesmo quando o filme precisa explicar questões políticas e jurídicas complexas.

Christian Bale entrega uma das interpretações mais impressionantes de sua carreira. Com uma transformação física radical, o ator desaparece completamente dentro do personagem. Seu Dick Cheney é silencioso, calculista e quase sempre emocionalmente impenetrável. Bale constrói um homem que raramente precisa levantar a voz para exercer influência. Pelo contrário: seu poder está justamente na capacidade de observar, esperar e agir nos momentos certos. Essa representação reforça uma das principais ideias do filme: nem sempre as pessoas mais poderosas são aquelas que ocupam o centro do palco. Amy Adams também merece destaque como Lynne Cheney, esposa de Dick e uma personagem fundamental para compreender sua trajetória. O filme apresenta Lynne não apenas como uma companheira, mas como alguém profundamente envolvida na construção da ambição política da família. Sua inteligência e determinação ajudam a transformar Dick Cheney em uma figura cada vez mais influente. A relação entre os dois é apresentada como uma espécie de parceria política, na qual os objetivos pessoais e familiares se confundem com a busca pelo poder.
No fim, Vice é um filme sobre muito mais do que Dick Cheney. É uma obra sobre ambição, influência e as estruturas invisíveis que determinam decisões políticas. A grande pergunta que permanece após os créditos é até que ponto uma democracia consegue perceber quem realmente exerce o poder. Presidentes aparecem diante das câmeras, fazem discursos e recebem os aplausos ou críticas da população. Mas, muitas vezes, as decisões mais importantes são construídas por pessoas que permanecem longe dos holofotes.Com interpretações excelentes, especialmente de Christian Bale e Amy Adams, uma direção ousada e uma narrativa que mistura humor e indignação, Vice é uma obra provocativa e necessária. Mesmo quando exagera ou assume uma postura claramente parcial, o filme consegue cumprir seu principal objetivo: fazer o espectador refletir sobre a natureza do poder.

