Penny Dreadful: City of Angels tinha uma proposta bastante promissora: transportar o universo sombrio de Penny Dreadful para a Los Angeles de 1938 e substituir os monstros góticos por uma sociedade marcada pelo racismo, pela violência policial, pelo fascismo e pela intolerância religiosa. O problema é que a série parece ter mais ideias do que capacidade de desenvolvê-las.

Los Angeles, 1938. Em uma cidade dividida pelo preconceito e pela construção de uma grande rodovia que ameaça comunidades mexicano-americanas, um crime brutal choca a população: um assassinato ritualístico vinculado ao folclore de Santa Muerte. O caso fica nas mãos de Tiago Vega , o primeiro detetive mexicano-americano do LAPD, e de seu parceiro veterano Lewis Michener . À medida que a investigação avança, a dupla descobre que o conflito vai muito além das brigas de gangues e da espionagem nazista na cidade — trata-se de uma guerra espiritual travada pela entidade da morte e por sua irmã metamorfa, Magda , uma demônia que se infiltra em diferentes vertentes da sociedade para provar a natureza corrupta da humanidade.

Na prática, City of Angels frequentemente se perde na própria ambição. Muitas subtramas são introduzidas sem receber desenvolvimento suficiente, enquanto personagens interessantes acabam reduzidos a peças de uma história excessivamente fragmentada. A série parece constantemente anunciar que algo grandioso está prestes a acontecer, mas nem sempre entrega a intensidade prometida. A comparação com a Penny Dreadful original também não ajuda. A primeira série possuía uma identidade muito mais definida, personagens memoráveis e uma atmosfera consistente. City of Angels tenta construir sua própria personalidade, mas acaba parecendo uma produção que utiliza a marca Penny Dreadful para contar uma história que nem sempre sabe exatamente que tipo de história quer ser.

Natalie Dormer é um dos principais destaques como Magda, entidade demoníaca que assume diferentes identidades para manipular os acontecimentos. A ideia é interessante, especialmente porque transforma o sobrenatural em uma metáfora para a capacidade humana de alimentar ódio e violência. Entretanto, a personagem também evidencia um dos problemas do roteiro: em vários momentos, sua presença parece existir apenas para conectar histórias que já eram complicadas demais. Lorenza Izzo complementa como Santa Muerte, uma contraparte luminosa de Magda  Nathan Lane, Daniel Zovatto, Johnattan Nieves, Adriana Barraza. ajudam a criar um elenco realmente diverso com a cultura latina.

O mesmo vale para a relação entre o sobrenatural e o contexto histórico. A série acerta ao perceber que o racismo, o fascismo e a violência institucional podem ser muito mais assustadores do que qualquer demônio. Porém, frequentemente parece não confiar nessa própria ideia. Em vez de deixar que a realidade produza o horror, insiste em inserir explicações sobrenaturais para acontecimentos que já seriam suficientemente perturbadores. Ainda assim, há méritos importantes. A reconstrução da Los Angeles dos anos 1930 é visualmente sofisticada, e a fotografia ensolarada cria um contraste interessante com o gótico da produção original. A escolha de uma cidade iluminada pelo sol, mas socialmente mergulhada em violência, funciona como uma boa inversão estética. 

O maior problema, entretanto, está no roteiro. City of Angels quer ser simultaneamente policial noir, terror sobrenatural, drama histórico, crítica social e comentário político. O resultado é uma série que raramente consegue atingir todo o potencial de qualquer uma dessas propostas. Há excelentes momentos, mas eles ficam dispersos em uma narrativa que poderia ter sido muito mais enxuta. No fim, Penny Dreadful: City of Angels é mais interessante como conceito do que como resultado. Sua tentativa de transformar os horrores sociais da América dos anos 1930 em uma espécie de terror sobrenatural é inteligente, mas sua execução irregular impede que a ideia alcance toda a força. É uma série visualmente competente, politicamente provocadora e cheia de potencial desperdiçado. Seu maior mérito é entender que os verdadeiros monstros não precisam de dentes, garras ou chifres. Seu maior problema é não saber quando deixar esses monstros humanos falarem por si.

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