No terror de 2026, conceitos antigos ganham novas roupagens em produções que buscam explorar diferentes facetas do medo. ‘Obsession‘ revisita os desejos indesejados e suas consequências; ‘Backrooms‘ aposta no poder atmosférico de uma dimensão etérea; e ‘Leviticus’, em sua abordagem dos traumas da juventude queer, marca a estreia de seu diretor em um longa-metragem. Já ‘Outra Mamãe’ resgata a ideia de uma cópia de alguém importante como instrumento de manipulação. Apesar de ter decepcionado parte do público em seus primeiros dias, será que o longa estrelado pela premiada Jessica Chastain tem algo a oferecer?
Bella é uma menina de sete anos que vive com a mãe, Ursula, e o pai, Russell. Ao ingressar em uma nova escola e perceber o distanciamento entre os pais, a criança começa a interagir com Outra Mamãe, uma entidade que assume a aparência de Ursula e insiste em conquistar seu afeto. À medida que a criatura revela sua verdadeira natureza e se torna cada vez mais poderosa, a família passa a fugir, tentando escapar de uma ameaça que parece estar sempre um passo à frente.
Depois de tantos exemplos interessantes no gênero ao longo deste ano, ‘Outra Mamãe’ não demonstra grande preocupação em construir uma experiência de terror elegante ou sutil. Em vez disso, aposta em uma abordagem caricata, tanto nos efeitos visuais quanto na linguagem cinematográfica, remetendo a produções menos refinadas de Sam Raimi. Os jumpscares são empregados com frequência, privilegiando sustos imediatos em detrimento de uma atmosfera de tensão gradual. Além disso, o uso excessivo de computação gráfica compromete algumas sequências, deformando personagens e criaturas de maneira que lembra mais os gráficos de um videogame do que o desconforto visceral característico do horror corporal.
O filme tenta abordar temas como as dores do amadurecimento e os conflitos entre maternidade e liberdade, sugerindo que o amor materno nem sempre é capaz de conciliar proteção e autonomia. Entretanto, entre efeitos visuais estranhos e interpretações deliberadamente exageradas, essas ideias acabam perdendo força. O resultado é um terror mediano, cujo potencial permanece aquém do esperado. A narrativa também sofre com problemas de ritmo: em vez de desenvolver seus conflitos de maneira orgânica, a trama parece começar já no segundo ato, deixando a impressão de que falta uma etapa essencial para estabelecer melhor os personagens e suas motivações.
Em diversos aspectos, ‘Outra Mamãe’ remete a ‘Coraline e o Mundo Secreto’, a obra-prima em stop-motion dirigida por Henry Selick. A presença de uma versão alternativa de uma figura materna, a dinâmica familiar conturbada e a promessa de um mundo aparentemente mais acolhedor, mas profundamente ameaçador, aproximam as duas produções. A diferença está na execução. Enquanto ‘Coraline’ equilibra fantasia, estranheza e horror com uma identidade visual marcante, ‘Outra Mamãe’ parece incapaz de encontrar o mesmo equilíbrio. Falta-lhe o charme macabro que torna a animação tão memorável, assim como a construção gradual do terror que transforma o familiar em algo assustador.
Jessica Chastain, por sua vez, é o grande trunfo da produção. Como Ursula, sua atuação não apresenta necessariamente uma interpretação revolucionária ou particularmente cheia de nuances, mas é convincente o bastante para despertar a torcida do público pela personagem. É quando assume a identidade de Outra Mamãe que a atriz realmente se destaca: Chastain diverte-se com a maldade da criatura, entregando uma vilã expressiva, ameaçadora e deliciosamente cruel. Sua presença confere personalidade a uma produção que, em outros aspectos, parece não saber exatamente o que deseja ser.
No fim, ‘Outra Mamãe’ é um filme que parece ter encontrado sua principal força no lugar errado: sua antagonista é muito mais interessante do que a história que a acompanha. Embora a premissa ofereça possibilidades para discutir amadurecimento, dependência emocional e os limites do amor materno, a execução superficial impede que essas questões alcancem a profundidade desejada. Talvez em dez, quinze anos o filme encontre uma audiência comprometida a essa história. Entre sustos previsíveis, efeitos irregulares e uma narrativa apressada, sobra pouco espaço para que o terror amadureça ou deixe uma impressão duradoura. Jessica Chastain, contudo, consegue transformar a antagonista em uma presença digna de atenção, mesmo quando o roteiro não lhe oferece material à altura. Ela é uma vilã muito maior que o filme — e talvez seja justamente por isso que ‘Outra Mamãe’ nunca consiga corresponder ao próprio potencial.

