A ideia de que a animação é uma mídia puramente infantil é equivocada. Muitas adaptações de obras literárias com imagens sombrias e desagradáveis recorrem à animação como forma de ampliar o público interessado nessas narrativas. ‘A Revolução dos Bichos’, por exemplo, ganhou em 1954 uma adaptação animada financiada pela CIA, levando às telas a obra alegórica de George Orwell. ‘Watership Down’ é outro exemplo notório desse estilo.
Lançado em 1978, ‘Watership Down’ pode parecer, à primeira vista, apenas mais uma animação infantil sobre coelhos falantes. No entanto, bastam alguns minutos de projeção para que qualquer expectativa nesse sentido seja completamente desfeita. A adaptação dirigida por Martin Rosen não suaviza os temas densos e existenciais do romance original de Richard Adams; ao contrário, mergulha no drama, no horror e na filosofia de forma direta, criando um dos filmes animados mais estranhamente sombrios e perturbadores de sua época.

A trama acompanha a jornada de um grupo de coelhos que foge de sua toca natal após a visão apocalíptica de Fiver, um dos membros mais sensíveis do grupo. Conduzidos por Hazel, seu irmão mais velho, eles partem em busca de um novo lar, enfrentando ao longo do caminho diversos perigos — naturais e sociais. Entre predadores, armadilhas humanas e, principalmente, a brutalidade de outros coelhos organizados sob regimes opressores, como a distopia militarizada de Efrafa, a narrativa constrói um mundo violento e implacável.
O que distingue ‘Watership Down’ de outras animações da década de 1970 é seu tratamento visual e tonal. O filme não tenta adoçar a violência do mundo natural. Trata-se de uma animação séria e narrativa implacável que, justamente por isso, permanece tão impactante. O uso de cenários em aquarela, aliados a uma paleta opaca e terrosa para os personagens, reforça a sensação de que não estamos diante de um conto de fadas, mas sim de uma mitologia agrária moldada pela luta pela sobrevivência.

A direção de Martin Rosen é segura: ele evita exageros e conduz a narrativa com um ritmo deliberado, permitindo que o espectador se envolva com os personagens — mesmo que estes nunca sejam completamente humanizados. Apesar de falarem, possuírem nomes e cultivarem uma cultura própria, os coelhos continuam sendo animais — vulneráveis, alertas, eternamente à mercê do acaso. Embora não sejam antropomorfizados em excesso, os coelhos vivem em diversas alegorias, seja religiosa ou política, como no caso do fascismo evidente encarnado por Woundwort.
O elenco britânico de vozes é um dos pontos altos da produção. John Hurt confere a Hazel uma dignidade tranquila; Richard Briers transmite fragilidade e fervor místico a Fiver; Michael Graham Cox é impecável como Bigwig, o guerreiro nobre e impetuoso. Já a voz cavernosa de Harry Andrews como o General Woundwort evoca uma brutalidade quase shakespeariana, transformando o vilão em um símbolo da tirania cega e da dominação autoritária.

O uso da mitologia Lapine — especialmente no prólogo estilizado e simbólico que narra a história de El-Ahrairah, o coelho trapaceiro ancestral — reforça a dimensão alegórica da obra. ‘Watership Down’ não é apenas uma história sobre coelhos. É uma narrativa sobre o exílio, a fundação de uma nova ordem, a resistência ao autoritarismo e, sobretudo, sobre a finitude da vida.
O impacto de ‘Watership Down’ perdura justamente por sua recusa em ser simplificado: Adultos que assistiram ao filme nas décadas de 1970 e 1980 frequentemente o descrevem como uma das experiências cinematográficas mais traumáticas de suas infâncias — e isso é revelador. O trauma não vem do grotesco gratuito, mas do reconhecimento precoce de que o mundo é, muitas vezes, violento e injusto.
Em uma época em que animações costumam ser diluídas em fórmulas confortáveis, ‘Watership Down’ continua sendo um grito raro e necessário: a arte também pode — e deve — confrontar. Pode provocar medo e tristeza, pois são essas emoções que fazem a esperança brilhar mais intensamente quando, finalmente, os coelhos encontram Watership Down — não como um paraíso, mas como o direito conquistado à sobrevivência.

