Durante muitos anos, a aclamada coletânea de graphic novels criada por Neil Gaiman, Sandman, foi considerada impossível de ser adaptada. Após inúmeras tentativas frustradas, a Netflix assumiu, em 2022, o desafio de transformar a popular saga dos Perpétuos — entidades oníricas e poderosas — em uma série live-action. A produção rendeu duas temporadas, sendo a segunda lançada em duas partes e marcando o encerramento da jornada de Morfeu e sua família. No entanto, essa conclusão chega em meio ao declínio da reputação de Gaiman, após diversas denúncias de abuso sexual e estupro. Resta a dúvida: o que será do Rei dos Sonhos e de seus compatriotas sem o olhar vigilante de seu criador?
Morfeu, o Senhor dos Sonhos, é libertado após cem anos de cativeiro no porão de um ocultista inglês. Ao retomar seus poderes e enfrentar um mundo transformado, ele embarca em uma jornada íntima e cósmica. Pela primeira vez em sua existência imortal, é forçado a confrontar as contradições de sua própria natureza. Em sua busca, transita por reinos humanos e sobrenaturais, encontrando figuras como seus irmãos Perpétuos, entidades arquetípicas, e Lúcifer Morningstar, o enigmático governante do Inferno.
Entre as criações mais icônicas dos quadrinhos modernos, Sandman é adaptada com a grandiosidade que merece. Visualmente, a série é uma conquista. Seus efeitos especiais e direção de arte não buscam o realismo convencional, mas sim a estética do sonho, espelhando a plasticidade e o simbolismo que permeiam o universo mitológico concebido por Gaiman. Elementos visuais — como silhuetas, objetos e cores — são carregados de significado e imediatamente reconhecíveis para os fãs da obra original.
A adaptação abraça o horror cósmico moderno com coragem. Não hesita em apresentar metáforas vívidas e cenas que podem causar desconforto, sem abrir mão de momentos de profunda delicadeza. Há passagens memoráveis: como quando Morfeu proclama o poder dos sonhos diante do Anjo Caído, ou quando sua irmã mais velha, Morte, consola com empatia as almas que conduz ao pós-vida.
A escolha de Tom Sturridge para interpretar Morfeu se revelou certeira. Sua performance contida e soturna capta a essência enigmática do personagem. O elenco de apoio também impressiona: Gwendoline Christie como Lúcifer, Kirby Howell-Baptiste como Morte e Mason Alexander Park como Desejo entregam interpretações que subvertem expectativas de forma inteligente e coerente. A diversidade, já presente nos quadrinhos, ganha aqui uma representação ainda mais rica e orgânica, refletindo os tempos atuais sem parecer forçada.
Entretanto, a série não está livre de falhas. A estrutura episódica tradicional da Netflix, com episódios relativamente uniformes em ritmo e duração, por vezes compromete a fluidez da narrativa. A fragmentação poética presente nos quadrinhos — essencial para a atmosfera de Sandman — é sacrificada em prol de uma linearidade mais convencional, diluindo parte da complexidade simbólica da obra original.
A segunda temporada, embora visualmente ambiciosa, perde um pouco do frescor da primeira. Focando no restante das aventuras de Morfeu, expande o universo ao introduzir outros Perpétuos, como a caótica Delírio, e figuras mitológicas, como Loki, o deus nórdico da trapaça. Essas tramas criativas carregam mais uma força emocional do que filosófica, mas falta algo neles que tornaram os primeiros episódios da primeira tão impactantes. Lançada no momento em que Neil Gaiman enfrentava o declínio público de sua imagem, a produção parece hesitar, evitando ousadias narrativas e mergulhando em uma zona de conforto. A tentativa da Netflix de expandir o universo Sandman com Dead Boy Detectives (2024) — elogiada pela crítica e com uma base fiel de fãs — foi frustrada por um cancelamento precoce.
A adaptação de Sandman é um feito corajoso e, em muitos aspectos, brilhante. Captura com sensibilidade o espírito da obra original, oferecendo aos espectadores uma experiência visual e emocional memorável. Ainda que tropece ao tentar conciliar fidelidade artística com os moldes tradicionais do streaming, a série consolida-se como uma das melhores adaptações de quadrinhos dos últimos anos.

