Em celebração aos 70 anos da morte de Eva Perón, a plataforma de streaming Star+, em parceria com a atriz Salma Hayek, produziu uma minissérie baseada no livro de Tomás Eloy Martínez para retratar o fim da saga em vida de Evita e a grande aventura que seu cadáver enfrentaria até seu sepultamento definitivo, em 1976. Tendo já discutido tanto o musical da Broadway quanto sua adaptação cinematográfica, esta produção, estrelada pela ex-paquita Natalia Oreiro, merece seu momento sob os holofotes.
Morta aos 33 anos, Evita teve seu cadáver embalsamado e proclamado “incorruptível” pelo médico Pedro Ara, sendo transferido para a sede sindical do movimento peronista enquanto se aguardava a construção de um sarcófago em um monumento que seria maior do que a Estátua da Liberdade. Contudo, a fantasia peronista nunca saiu do papel: o presidente Perón foi deposto por um governo militar apenas dois anos após a morte de Eva. A partir desse momento, o cadáver da primeira-dama embarca em sua própria e perturbadora odisseia, expondo as visões delirantes em torno da mártir do populismo.
A produção da Disney e de Hayek se passa nos anos posteriores à queda de Perón — em pleno segundo regime militar —, e acompanha um jornalista determinado a descobrir o paradeiro do corpo de Evita, enfrentando a resistência de figuras militares interessadas em manter o segredo oculto. Com toques de misticismo e suspense, a narrativa acompanha a sede jornalística que ultrapassa os limites da razão na busca pela segunda esposa de Juan Perón.
Baseada no romance homônimo, a obra apresenta diversas teorias que transformam o desaparecimento de Evita de mera manobra política em mito ou fonte de mistério. O fascínio necrofílico que o coronel Moori Koenig sentia pela múmia da primeira-dama é plausível dentro do contexto sombrio apresentado; já aspectos como as figuras de cera ou as peregrinações invisíveis de peronistas conferem à trama um tom quase sobrenatural.

Visualmente, Santa Evita é um espetáculo. A direção de arte é primorosa, com cenários e figurinos que capturam a opulência decadente da era peronista e o clima opressor da repressão militar. A fotografia aposta em tons escuros e interiores sufocantes, acentuando a sensação de claustrofobia moral que permeia toda a trama.
As atuações são um dos grandes trunfos da série. Natalia Oreiro entrega uma Evita multifacetada, distante da caricatura: em vida, uma mulher de fibra e paixão; em morte, um espectro que assombra a consciência de seus algozes. Grandinetti, por sua vez, constrói um Perón humano e vulnerável, um líder que se dissolve diante do próprio mito que ajudou a criar. Embora alguns coadjuvantes, especialmente entre os militares, entreguem atuações um tanto genéricas, o núcleo central sustenta a narrativa com intensidade e credibilidade.

Apesar de Santa Evita permanecer fiel ao espírito do livro que a inspira, seu ritmo irregular pode ser um desafio. O uso frequente de flashbacks, embora justificável para a construção da história, às vezes dilui a tensão que deveria crescer de maneira contínua. Além disso, quem busca conhecer melhor a trajetória de Eva Perón em vida poderá se frustrar: a série dedica pouco tempo a esse aspecto, preferindo explorar a construção de seu mito e a obsessão que seu corpo suscitou.
Ainda assim, Santa Evita é uma produção profundamente bem-realizada, que compreende a dimensão simbólica de Evita para a Argentina e para a história latino-americana. Em vez de oferecer respostas fáceis, a série propõe uma reflexão melancólica — e, por vezes, perturbadora — sobre o poder dos mortos entre os vivos, a transformação do corpo em relíquia política e a fragilidade dos homens diante dos ícones que criam. Bela, densa e inquietante, Santa Evita ultrapassa o interesse biográfico e se torna um retrato universal da memória e do luto coletivo.

