A teledramaturgia brasileira, durante muitas décadas, serviu como um espelho para refletir desejos, angústias e esperanças do povo. Contudo, uma vertente estética e narrativa específica ganhou relevo de maneira singular: o realismo fantástico. Inspirado por autores latino-americanos como Gabriel García Márquez, mas também profundamente enraizado nas tradições orais, nas crenças populares e nas mitologias nacionais, o realismo fantástico brasileiro encontrou na televisão um terreno fértil para florescer — se não como gênero consolidado, ao menos como conjunto de elementos cruciais. Não se tratava apenas de retratar a realidade com toques de magia, mas de construir um universo em que o fantástico se inserisse com naturalidade no cotidiano, como parte orgânica da cultura e da linguagem popular do país.
Talvez o exemplo mais emblemático seja “Saramandaia”, criada por Dias Gomes. A novela é frequentemente considerada a primeira grande manifestação do realismo fantástico na teledramaturgia nacional. Ambientada na cidade nordestina fictícia de Bole-Bole, a obra apresentava personagens que explodiam ao comer demais, criavam asas ou tinham formigas saindo do corpo — metáforas viscerais das tensões políticas, sociais e ideológicas do Brasil sob o governo militar e suas múltiplas repressões. Ao misturar o absurdo com críticas contundentes, “Saramandaia” estabeleceu um modelo que seria retomado em diversas produções posteriores, consolidando o fantástico como linguagem crítica e simbólica da TV brasileira. O folhetim foi refeito em 2014, com efeitos especiais que deram vida aos exageros originais e introduziram ainda mais elementos fantásticos — de unicórnios a metáforas tornadas literais. A crítica à oligarquia que comandou — e em alguns lugares ainda comanda — o país se tornou mais acessível, com os elementos sobrenaturais atuando como facilitadores da compreensão simbólica. Entre os muitos exemplos memoráveis de realismo fantástico em Saramandaia é com a presença de Dona Redonda: obesa e com um apetite insaciável, Redonda continua a engordar até explodir, e transformando a vida de alguns personagens. A explosão da personagem se tornou um dos momentos mais icônicos da teledramaturgia brasileira e – tal qual o assassinato de Odete Roitman– parou a televisão quando chegou a vez do Remake de repetir o evento.

Outro marco incontornável é “Roque Santeiro” (1985), de Dias Gomes e Aguinaldo Silva. A novela foi censurada por dez anos antes de finalmente ir ao ar e se tornou um fenômeno nacional. Roque, o “santo” que retorna misteriosamente à cidade de Asa Branca — onde já era cultuado como mártir — desmonta não apenas o mito de si mesmo, mas toda a estrutura de poder que dele se alimentava. O realismo fantástico dialoga aqui com o messianismo, a religiosidade popular e a manipulação da fé, compondo uma narrativa em que o extraordinário serve para revelar as engrenagens ocultas da realidade. A novela inclui elementos folclóricos, como lobisomens, mas também absurdos simbolicamente realistas — como o vendedor de medalhas que acaba se afogando em sua própria coleção.
Na década de 1990, o fantástico ganha contornos ainda mais populares com “A Indomada” e “Porto dos Milagres”, ambas de Aguinaldo Silva. Essas produções exploram o religioso, os arquétipos do folclore nordestino e elementos da cultura popular brasileira, sempre por meio de uma linguagem hiperbólica, colorida e metafórica. Em “A Indomada”, personagens utilizam um idioma híbrido entre inglês e português, há maldições familiares e figuras que tangenciam o sobrenatural. O exemplo mais célebre é Maria Altiva Pedreira de Mendonça e Albuquerque, vilã interpretada por Eva Wilma, que, após perecer em um incêndio, se transforma em fumaça e promete retornar.

É importante notar que o realismo fantástico na televisão brasileira não se resume a elementos milagrosos ou extravagantes. Ele se define, acima de tudo, por uma lógica narrativa em que o inexplicável é aceito com naturalidade em diferentes pontos da nação, dialogando diretamente com folclores regionais. O realismo fantástico não rompe com a realidade: ele a amplia, revelando suas fissuras mais profundas através do insólito.
Mais recentemente, novelas como “Cordel Encantado” (2011) e “Joia Rara” (2013) revisitam o fantástico por meio de uma estética poética e de influência literária. “Cordel Encantado” mistura monarquia europeia e sertão nordestino em um conto de fadas abrasileirado, no qual profecias, vilões operáticos e amores épicos coexistem com retirantes e vaqueiros. Já “Joia Rara” incorpora o budismo e a reencarnação como forças centrais da narrativa, fundindo espiritualidade oriental e melodrama tradicional. Folhetins como “Meu Pedacinho de Chão” e o remake de “Pantanal” também servem como exemplos consistentes do gênero: no primeiro, a estética artificial e altamente estilizada cria um universo único e marcante; no segundo, a relação dos personagens com a natureza mantém os vínculos com o realismo fantástico — o Velho do Rio transformando-se em sucuri e Maria Marruá em onça-pintada são os exemplos mais célebres.

O gênero sofreu um revés com o lançamento de “O Sétimo Guardião”. O fracasso da novela fez com que a exploração do fantástico passasse a uma esfera secundária e, desde então — excetuando os remakes ligados à obra de Benedito Ruy Barbosa — não vem sendo explorado em todo o seu potencial.
O realismo fantástico na teledramaturgia brasileira é, portanto, um reflexo da alma nacional: mística, contraditória, resiliente e profundamente simbólica. Ao incorporar o imaginário popular às estruturas clássicas do melodrama, a televisão brasileira não apenas entretém, mas traduz a complexidade de um país em que o real e o sobrenatural frequentemente caminham lado a lado — seja nos terreiros, nas romarias, nas ruas ou nas salas de estar diante da TV.

