O Oscar de Halle Berry, em 2002, representou um marco histórico para a Academia. Após várias indicações de talentos afro-americanos na categoria de Melhor Atriz, finalmente uma artista negra conquistou a estatueta, tornando-se a primeira não branca a vencer nessa categoria. No entanto, a vitória que abriu caminho para nomes como Berry, Whoopi Goldberg, Octavia Spencer, Viola Davis e Regina King foi a de Hattie McDaniel, em 1940, na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante. Sua conquista, no entanto, ainda hoje é cercada de controvérsias.

Embora muitas décadas tenham se passado desde sua vitória e seu falecimento, o papel que lhe garantiu o Oscar ainda é analisado com cautela por críticos e entusiastas do cinema. Isso porque a personagem ajudou a perpetuar estereótipos dos afro-americanos da época. Ainda assim, a presença de Hattie no cenário cinematográfico serviu como um primeiro passo para a inclusão de atores negros em Hollywood, apesar da resistência da indústria em promover mudanças significativas.

Filha de dois ex-escravizados, sendo seu pai um veterano da Guerra Civil Americana, Hattie McDaniel era a caçula de 13 irmãos. Apesar dos desafios, teve uma educação voltada para a música e as artes. No início de sua carreira, trabalhou como cantora e comediante, apresentando-se em grupos de vaudeville. Nos anos 1930, mudou-se para Los Angeles, onde conseguiu oportunidades no rádio e iniciou sua trajetória no cinema. Durante a Era de Ouro de Hollywood, foi frequentemente escalada para interpretar empregadas e serviçais, reforçando estereótipos da população afro-americana. Confrontada por ativistas negros sobre aceitar tais papéis, McDaniel defendia-se dizendo: “Prefiro interpretar uma empregada do que ser uma”.

McDaniel consolidou seu nome principalmente em comédias, mas foi sua atuação no épico “E o Vento Levou” que lhe garantiu reconhecimento. No papel de Mammy, a fiel ama da família O’Hara, combinava drama e comédia, mas também reforçava estereótipos raciais. Mammy era a única que ousava confrontar Scarlett O’Hara e acompanhou diferentes gerações da família em meio às transformações dos Estados Unidos. Com essa interpretação, Hattie venceu Olivia de Havilland e fez história ao se tornar a primeira atriz afro-americana a conquistar um Oscar. No entanto, demoraria 50 anos até que outra atriz negra, Whoopi Goldberg, vencesse novamente, na mesma categoria, por sua atuação em “Ghost”.

Apesar da vitória, McDaniel enfrentou a dura realidade da segregação racial. Não foi convidada para a estreia de “E o Vento Levou”, pois o evento era restrito a brancos. Na noite da cerimônia do Oscar, também não pôde sentar-se com o restante do elenco, sendo colocada em uma mesa afastada.

Mesmo após seu grande feito, sua carreira continuou limitada a papéis de empregadas. Uma de suas participações mais notáveis foi no controverso filme da Disney, “Canção do Sul”, no qual interpretou Tia Tempe, uma personagem que cantava enquanto cozinhava e narrava as histórias do mítico Tio Remo. Ao longo de sua trajetória, Hattie participou de mais de 300 filmes.

McDaniel se tornou um ícone para gerações futuras, equilibrando papéis estereotipados com performances marcantes que demonstravam seu talento. Além de sua carreira cinematográfica, ela também foi uma defensora dos direitos civis, utilizando sua influência para apoiar causas da comunidade negra.

Hattie McDaniel faleceu em 26 de outubro de 1952, aos 57 anos, vítima de câncer de mama. Seu Oscar foi doado à Universidade Howard, uma instituição historicamente ligada à comunidade negra nos Estados Unidos. Contudo, com o passar dos anos, a estatueta desapareceu, e seu paradeiro permanece desconhecido até hoje, com teorias sugerindo que tenha sido perdida ou roubada durante reformas na universidade entre os anos 1960 e 1970.

Mais de 80 anos após sua vitória, seu legado permanece vivo, sendo lembrado não apenas por sua habilidade como atriz, mas também por seu impacto na luta contra o racismo na indústria cinematográfica. Seu trabalho continua a ser revisitado, especialmente em debates sobre a representação dos afro-americanos no cinema clássico de Hollywood.

Categorized in: