Ao longo de quase cem anos de existência, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas tem demonstrado grande cautela ao prestigiar o gênero do terror. Em 97 edições do Oscar, apenas sete filmes desse gênero foram indicados à categoria de Melhor Filme: ‘O Exorcista’ (1973), ‘Tubarão’ (1975), “O Silêncio dos Inocentes’ (1991) — o único vencedor dessa lista —, ‘O Sexto Sentido’ (1999), ‘Cisne Negro’ (2010), ‘Corra!’ (2017) e, mais recentemente, ‘A Substância’ (2025). Durante esse período, diversos filmes de terror de alta qualidade foram lançados, mas, em sua maioria, foram relegados a categorias técnicas, como Melhor Figurino e Melhor Maquiagem.
Diante desse histórico, o que fez de ‘A Substância’ — um horror corporal inicialmente rejeitado pela Universal Pictures — um dos filmes mais populares do Oscar de 2025, concorrendo em cinco categorias, incluindo Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro Original? Além disso, sua protagonista, Demi Moore, desponta como a grande favorita ao prêmio de Melhor Atriz, em uma das categorias mais disputadas da noite.
O filme conta a história de Elizabeth Sparkle, uma atriz cuja carreira entra em declínio após os 50 anos. Desolada, ela descobre uma nova droga sintética que promete rejuvenescer e criar uma versão “aperfeiçoada” de si mesma, batizada de Sue. No entanto, essa versão alternativa rapidamente ganha notoriedade e autonomia, desencadeando um conflito entre ambas, levando a consequências fatais. O longa aborda temas profundos, como a obsessão pela juventude e os padrões irreais de beleza, especialmente em um sistema que discrimina mulheres mais velhas.
A última vez que um filme de terror venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original foi com ‘Corra!’, de Jordan Peele, que usou o gênero para discutir o racismo na sociedade contemporânea. ‘A Substância’ adota uma abordagem semelhante, mas direcionada à busca incessante pela perfeição e ao etarismo em Hollywood. A direção de Coralie Farjeat imprime um estilo único ao horror corporal, explorando com brutalidade e sensibilidade a pressão social sobre a aparência feminina. Esse olhar pode conquistar os votantes da Academia, que tradicionalmente valorizam filmes com comentários sociais relevantes.
A CORRIDA DE DEMI MOORE PELO OSCAR
Na categoria de Melhor Atriz, Demi Moore lidera as previsões, concorrendo com Fernanda Torres, Cynthia Erivo, Mikey Madison e Karla Sofía Gascón. Embora Torres e Madison sejam fortes candidatas, a vitória de Moore é amplamente esperada. Embora o filme não se sustente apenas em sua performance, Demi Moore é um dos alicerces que garante o funcionamento do longa de Farjeat, embora uma vitória também possa ser vista como um reconhecimento tardio de sua trajetória em Hollywood, algo comumente chamado de Legacy Oscar.
A indicação de Moore também marca um momento histórico para o gênero de terror, frequentemente negligenciado em categorias de atuação. Nos últimos anos, performances aclamadas, como as de Lupita Nyong’o em ‘Nós’, Toni Collette em ‘Hereditário’ e Florence Pugh em ‘Midsommar’, foram ignoradas pela Academia, enquanto indicações costumam favorecer atuações em biografias tradicionais.
Até hoje, apenas nove atrizes foram indicadas ao Oscar por filmes de terror, incluindo nomes icônicos como Bette Davis e Ellen Burstyn. Dentre elas, apenas três venceram: Jodie Foster (‘O Silêncio dos Inocentes’), Kathy Bates (‘Louca Obsessão’) e Natalie Portman (‘Cisne Negro’). Além disso, Ruth Gordon também conquistou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante por ‘O Bebê de Rosemary’.
As vitórias de Gordon, Foster, Bates e Portman revelam um padrão entre as performances premiadas no gênero: embora ambientadas em filmes de terror, suas atuações são relativamente convencionais e poderiam facilmente se encaixar em dramas. Gordon dá vida a uma vizinha intrometida com motivos escusos;Foster interpreta uma agente do FBI envolvida na caçada a um serial killer; Bates vive uma fã obcecada que sequestra seu escritor favorito; e Portman dá vida a uma bailarina à beira do colapso mental. Mesmo em filmes que abraçam plenamente o terror em seus atos finais — como ‘Cisne Negro’ e ‘O Bebê de Rosemary’ —, suas protagonistas seguem uma construção dramática e de atuação tradicional.
Demi Moore se encaixa nessa tendência. Apesar de sua transformação no “monstro Elisasue” nos momentos finais do filme e de sua condição debilitada no terceiro ato, sua interpretação de Elizabeth Sparkle remete a um arquétipo clássico da Academia: a atriz decadente. Sua trajetória de declínio e isolamento mental reflete histórias reais de artistas que perderam o brilho ao longo dos anos, evocando personagens como Norma Desmond, de “Crepúsculo dos Deuses”.
Embora Fernanda Torres seja a única concorrente indicada por um drama — o gênero favorito do Oscar —, a longa carreira de Moore e sua presença consolidada em Hollywood podem pesar a seu favor.
Se ‘A Substância’ conseguir triunfar no Oscar, especialmente nas categorias de Roteiro Original e Melhor Atriz, isso pode representar uma mudança no histórico da premiação em relação ao terror. A Academia, conhecida por esnobar o gênero, pode estar prestes a reescrever sua trajetória, reconhecendo um filme que utiliza o horror corporal para abordar questões sociais relevantes e apresentar performances dignas de premiação.