A postagem a seguir é baseada em um vídeo essay do canal ‘Arken the Amerikan’. Link do vídeo na integra aqui

A trilogia prequel de ‘Star Wars’ — composta por ‘A Ameaça Fantasma’ (1999), ‘Ataque dos Clones’ (2002) e ‘A Vingança dos Sith’ (2005) — é frequentemente criticada por seu foco em intrigas políticas e negociações burocráticas entre os múltiplos sistemas intergalácticos da galáxia, enquanto suas contrapartes originais focavam em um conflito direto. No entanto, essas críticas muitas vezes ignoram a relevância central dessas temáticas na narrativa e como elas representam um paralelo com o mundo real.

Desde sua criação, ‘Star Wars’ sempre incorporou elementos políticos, como a luta contra o autoritarismo e os desafios enfrentados por sistemas democráticos, sem medo de apontar paralelos com realidades históricas, como a representação do Império — o grande vilão da saga — como uma adaptação intergaláctica da força militar dos Estados Unidos. A trilogia prequel, lançada entre 1999 e 2005, aprofunda esses temas, refletindo sobre a fragilidade das instituições e o surgimento de regimes totalitários em diferentes contextos.

A Política em ‘A Ameaça Fantasma’

O filme começa com um bloqueio comercial imposto pela Federação de Comércio ao planeta Naboo — um conflito aparentemente menor, mas que serve como ponto de partida para explorar problemas sistêmicos na República Galáctica. A burocracia e a corrupção no Senado impedem uma resposta eficaz, expondo a ineficiência de uma instituição sobrecarregada e infiltrada por interesses corporativos. O Chanceler Valorum, embora bem-intencionado, é incapaz de liderar devido às pressões políticas e econômicas de figuras influentes em seu círculo principal. Esse cenário reflete as fragilidades de muitas democracias que se tornam reféns de sistemas disfuncionais.

Nesse contexto, o senador Palpatine — que mais tarde será revelado como Darth Sidious — aproveita o caos para ascender ao poder, prometendo reestabelecer a fé na República . Sua trajetória é um alerta sobre como figuras autoritárias podem explorar crises para corroer estruturas democráticas por dentro.

A Desilusão em ‘Ataque dos Clones’

No segundo filme, a galáxia está à beira da guerra civil, com o movimento separatista liderado pelo Conde Dookan, um jedi desgostoso que desafia a República. O roteiro explora como a polarização política e a desconfiança nas instituições podem fragmentar um sistema. Dooka  representa uma visão alternativa, embora manipulada, de resistência à corrupção galáctica. Sua adesão ao movimento separatista reflete o sentimento de abandono de diversas regiões pela República.

Enquanto isso, Palpatine consolida seu poder, justificando a criação de um exército de clones como resposta à crise. Essa militarização é um sinal claro da inclinação da República para soluções autoritárias, uma tendência recorrente em regimes em tempos de insegurança. O uso da emblemática “Marcha Imperial” de John Williams, durante a ativação do exército de clones, simboliza o prenúncio da queda da liberdade na galáxia.

A série animada ‘The Clone Wars’ expande o conflito, destacando não apenas batalhas épicas, mas também a deterioração política do Senado e a consolidação de poder de Palpatine. Muitas histórias exploram como mundos inteiros são sacrificados em prol de interesses políticos, colocando muitos senadores como personagens principais de certos arcos .

A Queda da Democracia em ‘A Vingança dos Sith

No último filme da trilogia, a República está em ruínas. Os Jedi, outrora guardiões da paz, tentam resistir ao crescente poder de Palpatine, que transformou o Senado em um instrumento de seus interesses. Embora o enredo foque na transformação de Anakin Skywalker em Darth Vader, ele também retrata o colapso de uma democracia milenar.

Palpatine, já não precisando esconder suas intenções, utiliza os poderes adquiridos durante as Guerras Clônicas para declarar o início do ‘Primeiro Império Galáctico’. Aplaudido por um Senado cúmplice, sua ascensão ilustra como regimes autoritários emergem ao explorar a corrupção e o medo.

A trilogia prequel oferece uma análise profunda sobre como democracias podem ser desestabilizadas por corrupção, burocracia, divisões internas. e lideres populistas O declínio da República reflete a transição de regimes democráticos para ditaduras, tema que ressoa em várias épocas históricas, como a ascensão do nazismo na Alemanha

Palpatine, um mestre na manipulação política, demonstra como lideranças autoritárias podem emergir dentro de sistemas democráticos, explorando suas fragilidades. Essa narrativa é um alerta relevante sobre os perigos da polarização e do autoritarismo.

Embora criticada por seu tom político, a trilogia prequel é uma reflexão ambiciosa sobre o declínio das democracias e o surgimento de regimes totalitários. Sua abordagem confere profundidade à saga, oferecendo uma lição atemporal sobre os riscos da erosão democrática, que transcende as telas e se conecta ao mundo real.

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