Tom Cruise é um dos astros com a carreira mais consistente de Hollywood. Embora esteja fortemente associado aos filmes de ação e aventura, o ator já demonstrou talento para transitar por diferentes gêneros e assumir personagens que fogem de sua imagem mais conhecida. Ainda que os resultados dessas experiências cinematográficas sejam variados, em 2026, Cruise se despe da própria vaidade e de seu habitual cinema de gênero para protagonizar ‘Digger’, sátira política dirigida por Alejandro G. Iñárritu. O filme funciona como uma versão contemporânea de um clássico de Stanley Kubrick e promete dividir opiniões ao combinar humor absurdo, crítica social e uma visão particularmente pessimista do mundo contemporâneo.
Em um mundo que não é tão diferente do nosso, Digger Rockwell é um excêntrico magnata do petróleo, considerado um dos homens mais poderosos do planeta. Quando acidentalmente provoca um desastre climático capaz de desencadear uma nova guerra, Rockwell precisa correr contra o tempo para impedir as consequências de suas próprias ações. O contraste entre a dimensão catastrófica do problema e sua aparente preocupação com questões banais — especialmente com os cuidados de sua velha e decrépita gata, Maggie — é uma das principais fontes do humor absurdo do filme.

‘Digger’ estabelece paralelos nada discretos com a atual administração de Donald Trump e com o crescimento da influência oligárquica nos Estados Unidos. O roteiro de Alejandro G. Iñárritu é dinâmico, absurdo e deliberadamente exagerado, embora muitas de suas situações não pareçam tão distantes de algumas notícias que chegam diariamente aos meios de comunicação. O diretor demonstra compreender muito bem como utilizar um senso de humor distorcido para construir uma crítica social evidente, mas que, na maior parte do tempo, não soa pedante ou excessivamente explicativa como ‘Não Olhe Para Cima’.
Em determinadas camadas, porém, o longa oferece surpresas que modificam a experiência de assisti-lo mais de uma vez. A narrativa incorpora elementos metalinguísticos e diferentes perspectivas sobre os acontecimentos, ampliando as possibilidades de interpretação e fazendo com que determinadas cenas adquiram novos significados conforme o espectador compreende melhor a estrutura da história. Essa característica impede que ‘Digger’ seja apenas uma sátira política convencional e acrescenta novas camadas à sua narrativa.

A direção de Iñárritu cria um retrato deliberadamente distorcido desse universo por meio de ângulos extremos, espaços amplos e um design de produção que transforma seus cenários em uma espécie de utopia distópica. O filme também evita estabelecer claramente em que momento poderia estar situado, criando uma sensação de deslocamento temporal que contribui para o desconforto de diversas cenas. As referências ao cinema surrealista aparecem tanto na composição dos enquadramentos quanto na construção de situações que desafiam a lógica convencional. A maquiagem também desempenha um papel importante ao afastar Cruise, Riz Ahmed e os demais integrantes do elenco de suas aparências mais reconhecíveis, permitindo que suas caracterizações ganhem força e que suas atuações se destaquem por conta própria.
O filme funciona, sobretudo, como uma versão moderna de ‘Dr. Fantástico‘, uma das sátiras mais conhecidas de Stanley Kubrick. Se o clássico de 1964 utilizava a Guerra Fria e o medo de um conflito nuclear como ponto de partida para discutir a irracionalidade política, ‘Digger’ substitui a ameaça atômica pela crise climática, pela exploração petrolífera e pelas consequências ambientais provocadas pela concentração de poder econômico. Se ‘Dr. Fantástico’ ironizava uma sociedade que precisava aprender a “parar de se preocupar e amar a bomba”, ‘Digger’ apresenta uma conclusão igualmente amarga: determinados problemas alcançam uma dimensão tão grande que escapam das mãos da população comum, enquanto aqueles que possuem poder suficiente para interferir no destino coletivo frequentemente são os mesmos responsáveis por criar ou aprofundar essas crises.

Tom Cruise surge praticamente irreconhecível como Digger, um fanfarrão incorrigível, extravagante e profundamente corrupto. A caricatura construída pelo ator está entre os elementos mais interessantes de sua fase recente, justamente por romper com a persona heroica e fisicamente impecável que marcou boa parte de sua filmografia. Riz Ahmed interpreta o Dr. Ganesh, contraponto neurótico e aparentemente mais racional ao protagonista, encontrando espaço para momentos de humor e vulnerabilidade. John Goodman interpreta o presidente dos Estados Unidos, personagem explicitamente inspirado em Donald Trump. O elenco ainda conta com Sandra Hüller, Michael Stuhlbarg e Jesse Plemons, que completam o conjunto de figuras excêntricas que circulam por esse universo.
No fim, ‘Digger’ encontra sua força justamente na contradição entre o tamanho dos problemas que apresenta e a maneira absurda como seus personagens lidam com eles. Iñárritu não transforma a crise climática, a concentração de poder ou a instabilidade política em um discurso convencional, mas em uma grande farsa sobre indivíduos que parecem acreditar que o mundo inteiro é apenas mais um brinquedo à sua disposição. A presença de Tom Cruise, tão associada ao espetáculo, ao heroísmo e ao controle absoluto de seus personagens, torna essa escolha ainda mais significativa. Ao colocá-lo no centro de uma sátira em que o poder, a riqueza e a influência são tratados como elementos potencialmente destrutivos, ‘Digger’ encontra uma maneira provocadora de questionar não apenas seus alvos políticos, mas também a própria lógica do cinema de grandes astros. É um filme estranho, desconfortável e deliberadamente excessivo — e talvez seja justamente essa inadequação que faça sua sátira funcionar.

