Pablo Larrain fez sucesso em Hollywood por seus filmes biográficos, como Jackie e Spencer, e por produzir o primeiro filme Chileno a conquistar o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro. Embora seu estilo não agrade a todos por desenvolvimento lento e produção presunçosa, sua produção “O Conde” é uma lufada de ar novo em sua filmografia. Indicado ao Oscar de Melhor fotografia e gravado em preto e branco, o filme é uma surpresa agradável e cheio de personalidade. Seu humor cínico e falta de personagens moralmente corretos. uma provocação estética e política, um híbrido raríssimo entre sátira, fábula gótica e cinema de horror histórico. O que poderia ser apenas uma alegoria de gosto duvidoso — transformar Augusto Pinochet em um vampiro literal — revela-se, sob o olhar do diretor, um comentário feroz sobre a permanência da violência ditatorial nas veias da América Latina. Filmado em um deslumbrante preto e branco, o longa escancara com sarcasmo sombrio e teatralidade barroca os fantasmas da história chilena e sua recusa em morrer.
O vampiro Claude Pinoche deixa a França Pós-Revolução e se torna Augusto Pinochet, Presidente e Ditador do Chile. Vivo a mais de 250 anos e isolado em uma fazenda após forjar a propria morte, o General anseia pela morte que nunca chegará enquanto sua família briga por suas partes da herança. Tudo muda quando Carmen, uma freira disfarçada de contadora, cruza o caminho do clã Pinochet. Enquanto tudo isso ocorre, corações de moradores de Santiago são brutalmente arrancados.
A decisão de transformar Pinochet em um monstro mitológico não é gratuita nem meramente estilística. O vampirismo aqui funciona como metáfora da espoliação econômica, da sede insaciável por poder, e da maneira como os sistemas autoritários se mantêm vivos — mesmo depois de mortos. A estética do filme é um espetáculo à parte. O preto e branco de O Conde não é um mero capricho visual, mas um recurso narrativo que remete aos clássicos expressionistas do horror, a filmes como Nosferatu (1922) ou O Vampiro de Düsseldorf (1931). A fotografia de Ed Lachman (colaborador habitual de Todd Haynes) é de uma beleza espectral, quase hipnótica, que acentua o tom de fábula macabra. Os voos noturnos de Pinochet, com sua capa esvoaçante e silhueta de Nosferatu, misturam o grotesco ao sublime e emprestam ao filme uma atmosfera de pesadelo lírico. A narração em off, feita por uma figura inesperada (cuja identidade só é revelada no final, em uma reviravolta inesperada), acrescenta um nível extra de ironia política.
Jaime Vadell, no papel de Pinochet, entrega um personagem que beira a autoparódia, mas nunca perde a ameaça latente de sua figura militar. Ele é patético e aterrorizante em igual medida . Gloria Münchmeyer, como a esposa Lucia Hiriart, é igualmente sinistra, quase uma Lady Macbeth com sotaque chileno e desejando ansiosamente em se tornar uma vampira. E Paula Luchsinger, como a freira inquisidora, funciona como o espelho moral do espectador — mesmo que ela própria também seja corrompida pela lógica do poder.
Seu ritmo contemplativo, suas metáforas explícitas e sua constante oscilação entre o ridículo e o sublime podem afastar parte do público. Mas essa ambiguidade é parte de seu projeto. Larraín, ao fundir terror, humor e crítica política, desafia convenções narrativas e rejeita qualquer tipo de redenção ou conforto. O Chile que ele retrata é um país onde os monstros envelhecem, mas continuam vivos — às vezes voando acima de nós, às vezes sentados no parlamento ou nas páginas da imprensa.
Em tempos de revisionismo histórico e negacionismo crescente, O Conde é um ato de memória radical. É como se Larraín, cansado de disputar a verdade nos termos da objetividade jornalística, recorresse à fantasia para revelar o que o discurso oficial insiste em esconder.

