A história de ‘Carrie, a Estranha‘ tem seu lugar preservado na cronologia do terror moderno. O primeiro livro publicado por Stephen King ganhou inúmeras adaptações — sendo a mais notoriamente lembrada a versão de 1976, estrelada por Sissy Spacek — ao longo das décadas, além de ser constantemente referenciado em outras produções. A obra se consolidou como uma fábula moral sobre o bullying, mesclando a crítica social a elementos de terror. Mike Flanagan, por sua vez, não é alheio ao universo do conceituado autor: o diretor foi responsável pelas bem-sucedidas adaptações de ‘Doutor Sono’ e ‘Jogo Perigoso’. Depois de dirigir uma série de produções de suspense e terror para a Netflix, Flanagan migra para a Amazon para desenvolver uma nova adaptação do clássico que alçou King à fama.
Uma tragédia varreu a pacífica cidade de Chamberlain, no Maine, na noite da formatura do colegial: mortos e feridos incontáveis, um incêndio que devastou a escola e parte da cidade e uma menina coberta de sangue. Após a trágica morte de seu pai, Carrietta White, conhecida como Carrie, precisa deixar para trás a vida em que era educada em casa por sua fanática mãe, Margaret, e enfrentar o desafiador mundo do ensino médio. Com o mundo aberto pela primeira vez diante de si e experimentando diversas “primeiras vezes”, Carrie acaba se tornando uma pária social nas mãos de Chris Hargensen, enquanto descobre possuir um poderoso dom telecinético.
A decisão de modernizar a história não é nova: tentativas de atualizar a narrativa e incorporar elementos tecnológicos já foram realizadas em 2002 e 2013. A mudança temporal para enquadrar esses elementos, entretanto, provoca alterações fundamentais em algumas das interações mais clássicas da obra. Ao mesmo tempo em que essas mudanças tornam a história de Carrie mais palpável e realista, elas também a inserem em um mundo pós-Columbine, explorando os efeitos do cyberbullying por meio da criação de uma conta difamatória que mergulha a escola no caos antes mesmo do incidente no baile.
Embora alguns momentos pontuais demonstrem como essa atualização pode funcionar positivamente, a nova abordagem também reduz personagens como Chris e Margaret a arquétipos bastante reconhecíveis: a “menina malvada” e a “Karen”, respectivamente. Ainda assim, essa simplificação não impede que a série encontre momentos de força graças às performances do elenco, que conseguem conferir maior dimensão a personagens que, em determinados momentos, acabam limitados pelo próprio roteiro.
Devido ao formato estendido de série, diversos conflitos inéditos ganham espaço, embora muitos sejam adaptações ou expansões de acontecimentos presentes no livro. Essas novas situações funcionam como uma preparação gradual para a icônica cena do baile, enquanto as habilidades — e a raiva — de Carrie se acumulam até que ela finalmente chega ao seu limite. Os conflitos adicionais também contribuem para o desenvolvimento de outros personagens, em uma tentativa de conferir profundidade a figuras que, na obra original, possuem características mais bidimensionais. Flanagan, novamente familiarizado com a obra de King, aborda com mais paciência o conceito do “Brilho”, habilidade tão presente no universo do autor, apresentando-o sob uma perspectiva que parece abrir portas para uma eventual adaptação de ‘ Torre Negra’ ou de outras obras relacionadas a esse elemento sobrenatural, inclusive temporadas originais ampliando a tragédia de Carrie.
Evidentemente, depois de uma década de ‘Stranger Things‘ — cuja protagonista foi parcialmente inspirada pelo imaginário de King —, a telecinese apresentada nesta versão de ‘Carrie’ não se mostra particularmente inventiva. Em comparação com produções como ‘A Maldição da Residência Hill’ e ‘Missa da Meia-Noite‘, a série também não mergulha no terror ou no suspense com a mesma intensidade, preferindo recorrer a uma fórmula mais conhecida, composta por jump scares e figuras sombrias. O verdadeiro terror, entretanto, está em elementos muito mais concretos para seus personagens adolescentes: bullying, abuso de poder, professores predadores e a ausência de autonomia sobre a própria vida. A principal construção de tensão está na própria Carrie, cuja transformação gradual conduz a narrativa. A mudança de tom entre o início e o final da série é justamente o que torna sua trajetória tão palpável: acompanhamos uma garota inicialmente assustada e reprimida transformar-se, pouco a pouco, em uma força destrutiva que já não consegue — ou não quer — controlar a própria raiva.
Summer H. Howell interpreta a nova Carrie White e, com seus grandes olhos expressivos, transmite a imagem de uma criatura perdida, cuja luz vai desaparecendo aos poucos. Sua caracterização também estabelece uma semelhança visual evidente com a icônica versão interpretada por Sissy Spacek. Samantha Sloyan cria uma Margaret White ligeiramente mais simpática — mas sem torná-la excessivamente afetuosa —, atualizada para o século XXI e para os diferentes perigos que uma figura como Margaret pode representar nesse contexto. Alison Thornton e Siena Agudong cercam Carrie como Chris Hargensen e Sue Snell, respectivamente, assumindo papéis fundamentais em sua trajetória. O elenco também conta com nomes como Thalia Dudek, Matthew Lillard, Rahul Kohli e Tim Bagley.
No fim, a nova ‘Carrie, a Estranha’ encontra seu maior mérito justamente na tentativa de transformar uma história já conhecida em algo compatível com os horrores contemporâneos. Embora nem todas as atualizações funcionem e a série ocasionalmente recorra a soluções previsíveis, a narrativa continua encontrando força naquilo que tornou a obra de Stephen King tão duradoura: o terror não está apenas no sobrenatural, mas na violência cotidiana praticada por pessoas comuns. Carrie continua sendo uma história sobre uma garota que é levada ao limite, mas a nova adaptação procura ampliar esse percurso, explorando com mais tempo suas relações, seus traumas e as consequências de viver em um ambiente onde ninguém parece disposto a protegê-la. Mike Flanagan nem sempre consegue reproduzir a atmosfera de suas melhores obras, mas encontra na tragédia de Carrie uma oportunidade para revisitar um dos grandes clássicos do terror sob uma perspectiva contemporânea.

