É difícil falar de ‘Shakespeare Apaixonado sem entrar em uma discussão com entusiastas do cinema. O filme de 1998, embora bem recebido por críticos e espectadores, tornou-se símbolo de um dos escândalos de campanha mais escancarados da história do Oscar — seja pela vitória controversa de Gwyneth Paltrow na categoria de Melhor Atriz, seja pelo triunfo do longa produzido por Harvey Weinstein sobre a obra-prima de Steven Spielberg, ‘O Resgate do Soldado Ryan’.
Por trás dessas polêmicas e dos veredictos do tribunal popular, revela-se uma charmosa comédia romântica que merece reconhecimento e atenção — mas não necessariamente alguns dos prêmios mais disputados da indústria cinematográfica norte-americana.
A história se passa na Inglaterra elisabetana, com a Rainha Elizabeth I no trono e William Shakespeare enfrentando um bloqueio criativo enquanto desenvolve uma nova comédia. Tudo muda quando ele conhece a jovem nobre Viola Lesseps, uma romântica apaixonada pelo teatro que sonha se tornar atriz — algo proibido para mulheres na época. Vivendo um amor proibido, Will e Viola desafiam as convenções de seu tempo, entregam-se a um palco repleto de personagens carismáticos e, sem perceber, inspiram uma das maiores tragédias românticas da história, provando que a abstração do amor pode ser representada em cena.
Deixando de lado os bastidores conturbados, *Shakespeare Apaixonado’ é um filme charmoso que exalta o amor pelo teatro e pela literatura, traçando inúmeros paralelos com as obras do dramaturgo inglês. Seja por meio dos diálogos ou dos personagens, o longa toma liberdades artísticas com figuras históricas para que grandes nomes pudessem interpretá-las. Além disso, traz à tona um fato desconhecido por muitos espectadores contemporâneos: as mulheres eram proibidas de atuar, até mesmo em papéis femininos. Assim, Viola se expõe para que seu amor pelo teatro — e, eventualmente, por Shakespeare — ganhe forma. Embora a trama se passe séculos antes do nascimento do cinema, os paralelos com os processos criativos da sétima arte rendem algumas risadas aos espectadores mais atentos.
A direção de arte de Martin Childs transporta o público para a Inglaterra do século XVI, da sujeira e caos das ruas à opulência da nobreza. Os figurinos de Sandy Powell são deslumbrantes, combinando simplicidade e sofisticação. Tanto Childs quanto Powell foram premiados com o Oscar em suas respectivas categorias.
O elenco entrega performances consistentes: Gwyneth Paltrow interpreta Viola com doçura e romantismo, recitando falas icônicas de Shakespeare e parecendo deslumbrante em praticamente todas as cenas. Joseph Fiennes encarna um Shakespeare sedutor e transgressor, mais próximo dos padrões da década de 1990 do que do século XVI. Geoffrey Rush interpreta um empresário teatral que deseja uma comédia sobre piratas, e Judi Dench — em menos de dez minutos de tela — dá vida com estoicismo à Rainha Virgem. O elenco ainda conta com talentos como Ben Affleck, Colin Firth, Jim Carter, Imelda Staunton, Tom Wilkinson e Rupert Everett, que, mesmo em papéis coadjuvantes, conseguem se destacar.
Distribuído pela Miramax, o filme foi indicado a 13 prêmios da Academia e venceu 7, incluindo Melhor Filme, Roteiro Original, Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante para Judi Dench. A cerimônia ficou marcada pelo embate entre Harvey Weinstein e Jeffrey Katzenberg, CEO da DreamWorks, produtora de ‘O Resgate do Soldado Ryan’. A derrota do filme de Spielberg na categoria principal tornou-se uma das injustiças mais infames da premiação, assim como a vitória de Paltrow sobre atuações mais impactantes, como as de Cate Blanchett e Fernanda Montenegro.
Décadas depois, diversos membros da Academia admitiram publicamente que, se pudessem voltar atrás, votariam em ‘O Resgate do Soldado Ryan’ em vez de ‘Shakespeare Apaixonado’, reforçando que a campanha agressiva de Weinstein teve um impacto duradouro, enquanto o filme de guerra só ganha mais prestígio com o tempo. Em 2020, Glenn Close declarou que a derrota de Fernanda Montenegro para Paltrow “não fazia sentido”. Já a própria Fernanda afirmou que a verdadeira injustiçada foi Cate Blanchett, embora tenha agradecido a defesa de Close. Até hoje, a vitória de Judi Dench na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante é alvo de debates sobre a relação entre tempo de tela e qualidade da performance.
Apesar de ser um dos produtos mais emblemáticos das campanhas brutais de Harvey Weinstein e de ser detestado por certos círculos cinéfilos, ‘Shakespeare Apaixonado’ é um filme divertido, que vale a pena ser revisto. Não é um épico, tampouco um clássico instantâneo, mas entrega uma história envolvente, exalta o prazer do teatro e proporciona um entretenimento agradável — a não ser que você seja um fã ferrenho de Fernanda Montenegro.