A franquia Rocky foi responsável por lançar Sylvester Stallone ao estrelato, ao mesmo tempo em que apresentou ao mundo a trajetória de um pugilista que, até hoje, inspira plateias ao redor do globo. Após dois filmes com abordagens narrativas mais sóbrias, a série passou a abraçar plenamente a estética e o exagero característicos dos anos 1980 — algo que se torna especialmente evidente no quarto capítulo. Rocky IV, quatro décadas depois, permanece como uma cápsula do tempo perfeita de um momento histórico específico vivido tanto pelos Estados Unidos quanto pelo restante do mundo.

No auge de sua vida de sucesso, Rocky Balboa vê surgir, diretamente da União Soviética, Ivan Drago — um lutador inflexível, projetado como símbolo da suposta superioridade soviética. Quando Drago acidentalmente mata Apollo Creed, amigo e mentor de Balboa, o “Garanhão Italiano” se prepara para um confronto no qual se trocam muito mais do que golpes físicos: trata-se de um embate entre ideologias.

Muita coisa havia mudado desde Rocky – O Lutador, tanto para o personagem quanto para o próprio Stallone. Embora o intimismo do filme original seja deixado de lado, este capítulo marca o início da construção de Rocky como uma figura quase super-heroica. O longa também dialoga diretamente com a retomada do patriotismo estimulada pela Era Reagan, após anos de desalento nacional. Esse patriotismo exacerbado surge em um tom que flerta com a sátira, exemplificado pela teatral entrada de Apollo Creed ao som de “Living in America”, explorando ao máximo os símbolos e a estética norte-americana.

O filme acompanha a evolução de Rocky como personagem e de Stallone como ator. Aqui, Stallone evidencia um maior peso dramático e físico, interpretando um homem em conflito constante — dividido entre o futuro no boxe e o luto pela perda de um mentor. Embora ainda preserve traços do brutamontes bem-intencionado de 1976, emerge um Rocky mais maduro e consciente. Mesmo que o quarto filme seja o mais cartunesco em termos estéticos, ele se revela fundamental para a construção emocional que culminaria no personagem visto em Creed II, quando Stallone finalmente se despediu do lutador.

 

Considerado um dos exemplos mais emblemáticos de propaganda americana no final da Guerra Fria, Rocky IV antecipa, em diversos aspectos, a dissolução do bloco comunista. A luta final entre Rocky e Drago ocorre no dia de Natal, em Moscou, e termina com os próprios líderes soviéticos ovacionando o “Garanhão Italiano”. Anos depois, Mikhail Gorbachev anunciaria a dissolução da URSS na mesma data, e seu sucessor, Boris Yeltsin, acabaria por abraçar a influência dos Estados Unidos. Ainda assim, o filme foi amplamente criticado pela representação caricata e vilanesca dos soviéticos, reforçando a narrativa que Reagan buscava vender: mesmo sem a tecnologia ou o aparato estatal, o americano comum ainda seria capaz de ascender e conquistar respeito por seus próprios méritos.

Além de Stallone, que assina a direção e o protagonismo, o elenco reúne rostos conhecidos e novas presenças. Talia Shire retorna como Adrian, a “primeira-dama” dos pesos-pesados, responsável por amparar Balboa em seu maior conflito emocional. Burt Young entrega a versão mais caricata de Paulie vista na franquia, enquanto Carl Weathers se despede de Apollo Creed em um personagem que luta para continuar fazendo o que ama, pagando um preço alto por isso. Dolph Lundgren impõe-se como o enorme e silencioso Ivan Drago, cristalizando o arquétipo do lutador perfeito mesmo que sem profundidade (que viria a Ganhar em Creed 2), enquanto Brigitte Nielsen interpreta a fatal Ludmilla Drago — uma figura que, para audiências contemporâneas, pode lembrar a imagem pública de Melania Trump.

Quarenta anos após sua estreia, Rocky IV permanece como um objeto cinematográfico tão fascinante quanto contraditório. Ao mesmo tempo em que é um produto explícito de seu contexto político e cultural, carregado de exageros e simbolismos quase ingênuos, o filme também consolidou definitivamente Rocky Balboa como um mito do cinema popular. Mais do que um simples filme de boxe, trata-se de um espetáculo sobre identidade, luto, persistência e a necessidade humana de acreditar que a mudança — pessoal ou coletiva — ainda é possível. Entre montagens musicais, bandeiras tremulando e discursos inflamados, Rocky IV segue resistindo não apenas como entretenimento, mas como um retrato exagerado, porém revelador, de uma era que acreditava que um homem, sozinho no ringue, poderia mudar o mundo.

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